Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI

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Pensão de Louco de Guerra

Dirão, contestando: “Hoje, os ex-combatentes estão sendo amparados: o governo concede-lhes uma pensão!…” Concede, realmente. E sabem que pensão é? É a pensão mais degradante, suja e miserável que se poderá atribuir a alguém: a desgraçada “Pensão de Louco de Guerra”! Essa pensão é um escárnio! É um deboche sem tamanho! É a intenção infame e sarcástica de estigmatizar, de desacreditar e de rebaixar a personalidade dos veteranos de guerra.

Como se todos tivessem voltado nessas condições da guerra... (soldado da imagem com neurose de guerra... seu olhar se entricheira no vazio como que só permanece a casca sem alma, alma de um jovem que antes da guerra tinha inúmeros sonhos.)

É a desonra e a vergonha maior que se poderá pretender lançar sobre a integridade e a dignidade dos que lutaram em nome da Pátria! Infeliz da Nação, que comete um aviltamento desses! É o “prêmio” que recebem, alquebrados e na velhice, os que retornaram de uma campanha penosa. E é o único tipo de pensão que o governo concede aos veteranos de guerra. Por outros motivos, não. O processo encalha, os anos passam e a pensão não sai. É condição sine qua non: ou aceita o labéu infamante, o descrédito e a destruição da própria personalidade, ou não recebe pensão nenhuma. Aceitando, a concessão é facílima. Rapidíssima. Três meses, no máximo. É só o veterano de guerra ou um daqueles reservistas apelidados também de “ex-combatentes”, por força da lei do general-deputado), assinar um requerimento, por sinal lacônico e simples.

Eis a minuta:

Ao Exmo. Sr. Chefe do Departamento Geral do Pessoal. Objeto: – Inspeção de saúde para fins de reforma.
1. (nome) ex-combatente da 2ª Guerra Mundial, identidade (número), reservista. achando-se em situação de invalidez, requer a V. Está. inspeção de saúde para fins de reforma prevista na Lei nº 25779 de 29 Ago 55.
2. A título de informação, para instruir o processo de reforma, declara: (seguem-se os dados pessoais do requerente).

Inacreditável! Os que permaneceram no Brasil, durante a guerra, também têm direito à “pensão de louco de guerra”! Fato calamitoso que está onerando, tremendamente, os cofres do Exército.

Os interessados contam com duas opções: a de reforma no posto ou graduação em que deu baixa ou ainda pela Lei 4242, que dá direito a uma pensão de segundo sargento, independentemente da graduação anterior, inclusive para os soldados. Esta última lei remonta aos benefícios concedidos aos herdeiros de veteranos da Guerra do Paraguai.

Por que de heróis a loucos? Por que tamanha humilhação, se o que fizeram foi executar da melhor forma as ordens recebidas, ainda fizeram mais do que esperavam deles?

Até 1967 havia algumas exigências embaraçosas para ser obtida a “pensão de louco de guerra”, tais como anexar ao requerimento um atestado fornecido por psiquiatra e sujeitar-se ainda a um internamento de 15 dias a um mês, numa das Enfermarias Psiquiátricas do Hospital Central do Exército. Ocorre que, com o crescente aumento de pedidos, sobretudo por parte de reservistas favorecidos pela lei do general-deputado, muitas das exigências anteriores foram, gradualmente, sendo dispensadas. E hoje a coisa está simplificada. Entretanto, os processos que andam mais rápidos e nunca falham, são os preparados, encaminhados e acompanhados por um dos dois grupos que, no Ato, exploram a “Indústria de Loucos de Guerra”.

Comenta-se que um desses grupos é menos escorchante que o outro, por isso se digladiam. Briga de competidores por uma coisa tão triste e feia. Os grupos mantêm ligações com médicos, enfermeiros e funcionários burocráticos das repartições militares; dispõem ainda de aliciadores que se encarregam de arrebanhar pretendentes à pensão, pelo interior do País; não raro financiam todas as despesas de viagem e hospedagem; instruem, dando as orientações e dicas, com exercícios, para que o paciente desenvolva todos os seus cacoetes e tiques nervosos, de maneira a simular bem o comportamento de louco, diante da junta médica. E, quando havia internamentos, as “Indústrias de Louco de Guerra” forneciam os nomes dos médicos e enfermeiros que iriam “tratar bem do internado” e nos quais poderia confiar.

Insanos jamais foram! A sanidade era o que lhes distinguiam entre a população civil italiana que festejavam-os cada vez que libertavam uma cidade.

Para o infeliz veterano de guerra, que desde a desmobilização fora esquecido pelos poderes públicos, marginalizado, envelhecido e atacado de mazelas várias resultantes da dura campanha que participou, vivendo na angústia e na miséria, qualquer coisa que lhe ofereçam, serve! Qualquer coisa que lhe acenem, por minguado, por sórdido e infame que seja como essa maldita pensão, é sempre recebido como uma dádiva dos céus, capaz de minorar seus sofrimentos.

Acontece que não são apenas os ex-soldados que estão se submetendo a essa terrível humilhação; os antigos oficiais também. É doloroso e revoltante assistir-se o que se está assistindo hoje no Brasil: ver os antigos tenentes comandantes de pelotões, na Itália, heróis e bravos que foram, agora envelhecidos, doentes e também marginalizados, encontrar-se, no final da vida, de mãos vazias!… E, como último e deprimente recurso, subjugados pelas circunstâncias, encaminharem-se, alquebrados e mal vestidos para uma dessas juntas médicas militares que lhes fornecerá o sórdido e infamante atestado de “louco de guerra”!

Soldado com Neurose de Guerra - Foto escaneada de "Nosso Século" - 1930/1945

A Pátria lhes deve muito mais; e, acima de tudo, deve-lhes respeito. Enquanto os antigos heróis se submetem a esse terrível vexame, os outros oficiais da reserva de sua época – hoje coronéis e generais de “espada virgem” – refestelam-se nos altos cargos das estatais (recebendo ainda por fora das multinacionais) e outros órgãos do governo, usufruindo de absurdas mordomias e contribuindo para afundar o Brasil em dívidas.

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

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Sobre o Autor do Post

Maria Auxiliadora já escreveu 32 artigos para este site.

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira graduou-se em Medicina no ano de 1973, pela Escola Médica do Rio de Janeiro. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia. Atualmente é Diretora da Junta Médica Pericial do Instituto de Previdência do Município de Fortaleza/CE. Desde menina dedicou-se à literatura, à poesia e ao teatro. Sonetista, trovadora e poetisa; participou de algumas antologias como “Poetas do Brasil” e “Escritores do Brasil” de Aparício Fernandes, “Em Busca do Poema Pérola”, “Coletânea Cidade do Aço” e entre outras obras. Criadora do site “Maux HomePage” – http://www.mauxhomepage.com - onde disponibiliza os temas que lhe interessam: web design, musica, poesia, história, educação infantil. Destaque para a seção “Piquete Cidade Paisagem”, onde enfatiza o carinho e a saudade de sua terra natal, sua gente, tradições, folclore e culinária. Filha e sobrinha de ex-combatentes da FEB, em homenagem a eles iniciou um trabalho de pesquisa sobre a atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Essa pesquisa é disponibilizada em seu site, na seção "Um Herói nunca Morre", E agora aqui no Segunda Guerra.org; tendo como único objetivo imortalizar a lembrança desses bravos brasileiros anônimos e esquecidos.


Comentários

  1. [... Pensão de Louco de Guerra Dirão, contestando: "Hoje, os ex-combatentes estão sendo amparados: o governo concede-lhes uma pensão!..." Concede, realmente. E sabem que pensão é? É a pensão mais degradante, suja ...]

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