Adolf Hitler foi um Perdedor ou Morreu consciente de sua Vitória?

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Berlim destruída em 1945
Berlim destruída em 1945 era apenas uma das grandes cidades alemãs que ficaram completamente devastadas ao término da Segunda guerra Mundial

que Hitler pensou ao cometer suicídio?

Afirmam por aí que somente quando uma vida ou um fenômeno histórico termina, ficam claros os seus reais elementos motivadores e determinantes. No meio das perguntas que surgiram com a morte de Adolf Hitler, há a polêmica acerca de o fato de ele se considerar ou não um perdedor ao disparar um tiro contra si mesmo. A resposta, nem de longe, é tão simples o quanto parece; e qualquer observador mais perspicaz irá emitir dúvidas sobre isso.

Naqueles últimos meses que antecederam maio de 1945, não bastasse os horrores de cidades destruídas, milhões de refugiados e o cheiro de morte por todos os lados. Muito além da derrota certa, parecia haver uma energia maléfica que se movia para estender a guerra e também destruir literalmente toda a Alemanha. E tal energia emanava do próprio líder alemão.

Ainda no Outono de 1944, com os inimigos batendo à porta das fronteiras alemãs, Hitler havia emitido diversas ordens que configurava o princípio de “Terra Devastada”. Tudo o que servisse de manutenção à vida, era para ser destruído: Indústrias, centrais de abastecimentos, linhas ferroviárias, sistemas de linhas telefônicas. Cada ponte, cada fazenda, monumentos artísticos, deveria ser posto abaixo.

Já em março de 1945, Hitler reforça seus intentos abertamente: “Toda e qualquer instalação militar, de transporte, de comunicações, industrial ou de abastecimento, assim como bens de valor real dentro do território do império que possam ser utilizados pelo inimigo para a continuação de sua luta — seja sua utilidade imediata ou previsível — devem ser destruídos.”

Adolf Hitler
Setembro de 1939: Adolf Hitler supervisiona sua tropa militar durante a ocupação nazista da Polônia. Tropas marcham em formação em direção a uma ponte de madeira, construída pelos nazistas do outro lado do rio San, perto de Jarolaw, na Polônia. Os nazistas e soviéticos haviam dividido a Polônia no final de setembro

Consequentemente, em diversos lugares, teve início aos preparativos para a demolição de fábricas, empresas de extração, entre outras edificações importantes. Tendo como passo seguinte a evacuação de cidades inteiras, ainda que já houvesse massas de pessoas vagando a esmo. Um fenômeno, aliás, que apenas piorava a confusão nas frentes de batalha, causando empecilho a todo tipo de operação militar.

Um general tentou demover Hitler de continuar com o “Decreto de Evacuação”, sob a justificativa de que não era viável condenar centenas de milhares de pessoas a vagar a esmo, sem transporte, alimentação, abrigo e demais necessidades básicas, o Führer afastou-se em silêncio.

Outra ordem expressa era de que, em casas onde houvesse uma bandeira branca, todos os habitantes do sexo masculino deveriam ser executados imediatamente. Isso indicava que a guerra deveria ser levada até as últimas consequências.

 

Hitler e o Desejo Latente de Destruição

Tais ordens destrutivas não era uma desesperada forma de defesa frente ao avanço de um inimigo voraz. Não! Essa postura sempre foi evidenciada por Hitler como sua atitude primária e predileta.

Quando chegou ao poder, precisou conter sua paixão pela destruição, dando lugar aos discursos sobre honra nacional, gritos de liberdade e durante os primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, aos anúncios de conquistas e expansões territoriais. Porém, mais próximo do fim, Hitler se autocensurou, sob a testemunha de Goebbels, por não ter devastado ainda mais.

Goebbels havia discursado durante uma conferência de imprensa: “Se formos a pique, então todo o povo alemão afundará conosco, e isso acontecerá de forma tão gloriosa que, mesmo depois de mil anos, o declínio heroico dos alemães na história mundial estará em primeiro lugar.”

O 9º Exército, sendo cercado, e tendo seus comandantes recebendo diversas negativas de retirada, até ser dizimado sem o menor sentido, é apenas um dos exemplos. Outro exemplo, incomparável por sua extensão, foi a guerra oriental, agravada sob a ideologia de “guerra de extermínio”, iniciada, significativamente, quando foi dado o sinal para acionar, em vasta escala, as medidas para eliminar as chamadas raças inferiores.

civis alemães
Os civis alemães, que Hitler acusou de falhar com ele e disse que mereciam morrer com ele, começam a reconstrução da Alemanha em maio de 1945

O regime tornou-se ainda mais nocivo à medida em que a situação ficava pior, em sua tentativa de perdurar a destruição. Mesmo o almirante Dönitz, sempre zeloso por ser visto como alguém correto, não hesitou em elogiar assassinos.

Numa “Ordem do Dia Secreta”, de 19 de abril de 1945, o almirante garantiu pleno reconhecimento a um primeiro-sargento da marinha, que se tornou um exemplo, pois, durante sua estadia numa prisão australiana, planejou a morte de outros prisioneiros alemães não leais a Hitler, “sem que os guardas soubessem”, como consta literalmente do relatório.

E aqui não temos um caso isolado. A impressão de que o desejo de aniquilação almejada por Hitler, se espalhou.

Segundo um relatório do chefe temporário do Estado-Maior, Franz Halder, durante a campanha na Polônia, Hitler exigiu o bombardeio da cidade de Varsóvia, que estava a um passo da rendição, e ficou fascinado com as imagens de destruição que assistia através de seu binóculo. Posteriormente, considerou a destruição de Paris, bem como de Moscou e Leningrado, e, com certo êxtase, narrado as consequências nefastas que foguetes ou bombas causariam nas ruas de Manhattan, devido aos seus arranha-céus.

 

Recuperar o tempo perdido e revelar ao mundo sua ira contida

Foram muitas as oportunidades perdidas em situações que sua paixão pudesse ter sido posta em prática. E, quando o Império estava em degradação, Hitler conseguiu atingir sua necessidade, em que as derrotas seguidas ao final, lhe satisfez mais que qualquer uma das vitórias iniciais.

A reviravolta contra o próprio povo não apenas foi levada em consideração por Hitler, como também incorporada por ele com crescente radicalismo. Em 27 de novembro de 1941, quando a possibilidade de derrota despontou pela primeira vez, com o início do inverno na frente em Moscou, ele afirmou a dois visitantes estrangeiros que o povo alemão deveria “definhar e […] ser destruído” se “não fosse mais forte o bastante nem estivesse mais disposto a se sacrificar para dar seu sangue por sua existência” e, então, ele “não choraria uma lágrima sequer”.

Oberwallstrasse
A Oberwallstrasse, no centro de Berlim, viu alguns dos combates mais violentos entre as tropas alemãs e soviéticas na primavera de 1945

Também, numa “frieza ímpar”, ele disse a Albert Speer, no dia 19 de março de 1945: “Se perdermos a guerra, o povo também estará perdido. Não é preciso atentar às necessidades básicas que garantem a manutenção das funções vitais mais primitivas do povo alemão. Muito pelo contrário, é até melhor destruir tudo isso, visto o povo ter provado ser o mais fraco, e o futuro pertencer unicamente ao povo do Leste, superior em força. Além disso, o que sobrar após esta batalha serão só os inferiores mesmo, pois os bons terão caído.”

Depois de Stalingrado e da consequente guinada na guerra, todas as decisões tinham um quê de ódio decepcionado dos alemães. Foi o que orientou toda a estratégia da última fase, a começar pelas consequentes negativas das solicitações para a criação de posições de apoio contra as previsíveis penetrações dos exércitos inimigos no front; até a ofensiva das Ardenas, de dezembro de 1944, onde Hitler retirou unidades fortes da frente leste, sob a intenção de mobilizar a resistência do povo, extenuado com a interminável guerra, com a ajuda da “ameaça russa”.

 

Planos de levar a Guerra até às Últimas Consequências

Há cerca de 2 anos antes, Hitler já declarara que, em caso de emergência, convocaria às armas rapazes de 14 anos, pois “ainda era melhor se caíssem lutando contra o leste, do que se fossem torturados ou desonrados exercendo o mais baixo dos trabalhos escravos, no caso de perderem a guerra”.

Como Hitler havia garantido quase quatro anos antes, o povo deveria “definhar e ser destruído” e, em conformidade com as “leis seculares” da luta pela sobrevivência, ele próprio colaboraria da melhor maneira possível.

Adolf Hitler
Hitler, retratado em 20 de abril de 1945, inspeciona a Juventude Hitlerista encarregada de defender Berlim no que se estima ser uma das últimas fotos do líder.

Segundo todas as opiniões confiáveis, foi graças a esse desejo de destruição, perseguido com exaustão, que Hitler conseguiu se manter até o último momento.

A aparência débil descrita por todas as testemunhas — o porte curvado, o andar arrastado e a voz cada vez mais cansada — é extremamente contraditória com a perseverança observada pelas mesmas pessoas — uma “ruína que não parava de se empanzinar de bolo”, que mantinha, entretanto, uma autoridade sugestiva, jamais contestada, como o descreveu um dos habitantes do bunker.

Em meados de março, o chefe do distrito de Danzig, Albert Forster, entrou no bunker em pânico e desespero, desabafando que os russos a frente das portas da cidade eram impressionantes, contando com 1.100 tanques contra os quatro blindados Tigers que defendiam Danzig. No entanto, um Forster “completamente transformado” saiu do escritório de Hitler, pouco tempo depois. “O Führer salvará Danzig”, discorreu ele, “não há dúvidas quanto a isso.”

Do mesmo modo, o general da SS Karl Wolff, em 18 de abril, desceu ao bunker com o mesmo objetivo, e também desistiu de tentar demovê-lo de sua ideia ao ouvir os projetos grandiosos que Hitler planejava para o futuro.

Analisando a situação como um todo é possível observar um entorpecimento político de Hitler que no o permitiu tirar vantagem de suas vitórias para além das ações militares. Não houve espaço para possibilidades diplomáticas.

 

Hitler, Um Líder de Bando

Não é absurdo concluir de que Hitler nunca passou de um líder de bando que galgou ao topo, com a perspicácia de um maquiavelismo de rua, diante do qual nenhum dos políticos cheios de pompa e circunstância daquele cenário europeu não estavam preparados.

A sua falta de escrúpulos, tanto na escolha dos meios utilizados quanto nos objetivos em vista, que temporariamente, conquistou suas vitórias. Como qualquer líder de bando, ele não buscava meta alguma que fosse além da ideia de destruir e acumular riquezas.

bunker hitler
Soldado dos Estados Unidos, Richard Blust, examina a sala (revirada por um esquadrão de inteligência soviético), onde Hitler e sua esposa Eva teriam cometido suicídio.

Pelo menos seus generais e, posteriormente, todos os espectadores constataram, não sem espanto, que, significativamente, nenhum dos conflitos que ele havia propositalmente começado com praticamente todo o mundo tinha o menor indício de um objetivo de guerra. Em fevereiro de 1941, quando ele ainda se embalava na ideia de que venceria a operação militar contra a União Soviética já durante o outono seguinte, e em vista de sua preocupação com a posterior paz ameaçadora, requisitou a Jodl um “estudo preparatório de ataque” contra o Afeganistão e a Índia.

Quando seu ministro de Relações Exteriores tentou convencê-lo, em 1943, a tentar um acordo de paz com Moscou, Hitler respondeu-lhe, dando de ombros: “Sabe, Ribbentrop, se eu entrar em acordo com a Rússia hoje, acabo declarando guerra novamente amanhã — esse é o meu jeito.”

Numa ocasião, Hitler afirmou que desejava entrar para a história como um homem jamais visto.

Cova de Hitler
Soldados soviéticos posam ao lado da suposta cova improvisada onde o corpo de Hitler e de sua esposa foram incinerados.

O modo em que sua morte naquele bunker fétido e obscuro, de acordo com a descrição de um dos moradores, além das ordens impotentes e dos ataques de ira com os quais se opunha à derrota iminente, trazem a ideia de que ele tinha consciência do seu descomunal fracasso. Hitler acreditava, porém, que uma grande queda restabeleceria muita coisa, além de ser uma realização. Significativamente, o último desejo de Adolf Hitler foi destrutivo e põe às claras, – como um símbolo, a motivação mais intensa em sua vida — a ordem de incinerar o seu corpo, dada na tarde de 30 de abril de 1945.

Referência: FEST, Joachim. No Bunker De Hitler: Os Últimos Dias do Terceiro Reich. São Paulo: Objetiva, 2005. 188 p.

sobre André Almeida

Psicólogo, pós-graduado em Psicopedagogia & Neurociência e entusiasta acerca da Segunda Guerra Mundial. Escreve no Ecos da Segunda Guerra sob a perspectiva de compartilhar um pouco do que foi a maior guerra da humanidade na era moderna. Busca por conteúdos que retratem a história e também revelem o quão intrigante foi os detalhes que compuseram esse conflito de proporção mundial.

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2 comentários

  1. Primeiramente Hitler era louco; depois covarde.

  2. Nada a ver. O Hitler não era louco deste jeito.

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