Em 1944, 39 crianças ciganas foram retiradas de um orfanato em Mulfingen e enviadas para Auschwitz. O caso revela o lado oculto do Holocausto: o genocídio dos povos Roma e Sinti, vítimas do racismo científico nazista.
O drama real das crianças ciganas usadas em experimentos nazistas, uma ferida ainda aberta na memória europeia.
Em 9 de maio de 1944, a paz do orfanato St. Josefspflege, em Mulfingen, no sul da Alemanha, foi rompida por passos duros e ordens militares. Trinta e nove crianças ciganas, vinte meninos e dezenove meninas, dos povos Roma e Sinti, foram levadas à força. Eram órfãs, pobres e indefesas. Sob o olhar impotente das irmãs católicas que administravam o local, o Terceiro Reich encontrava ali suas cobaias ideais.
Antes da deportação, aquelas crianças foram submetidas a experimentos pseudocientíficos. A responsável era Eva Justin, assistente do médico Robert Ritter, do Instituto Nazista de Higiene Racial e Biologia Populacional. O disfarce era acadêmico, medir crânios, registrar traços faciais, estudar comportamentos. Mas o objetivo era puramente ideológico: comprovar que os ciganos eram uma “raça inferior”, incapaz de se integrar à civilização alemã.
Em 1944, Eva Justin concluiu sua tese de doutorado afirmando que, mesmo educadas fora de suas comunidades, as crianças Sinti e Roma manteriam “traços raciais degenerados”. Pouco depois de defender a tese, ela assinou a autorização para que fossem enviadas a Auschwitz-Birkenau. A pesquisa chegava ao fim; o genocídio começava.
Em Birkenau, as crianças foram levadas ao Zigeunerlager, o “campo cigano”. Lá, o frio, a fome e as doenças se tornaram armas letais. Algumas foram vítimas de experimentos médicos; outras morreram sem nome, em silêncio, sob o peso da neve. Das trinta e nove crianças, apenas quatro sobreviveram.
A imagem que restou, rostos infantis encarando o vazio, tornou-se símbolo do Porajmos, o genocídio cigano. Durante décadas, a Alemanha reconheceu o Holocausto judeu, mas demorou a admitir a perseguição sistemática dos Roma e Sinti. O esquecimento tornou-se uma segunda condenação.
Essas crianças existiram. Riram nos corredores de um orfanato, sonharam com o calor de uma família que nunca voltou. Um dia, em nome da ciência e da pureza racial, foram levadas para morrer. Hoje, lembrar delas é um ato de justiça, e um lembrete de que o silêncio também mata.
Fonte: Texto original de Paulo Henrique Máximo Lacerda – A História Esquecida
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