DODGE ¾ Ton. WC-51 UMA EXPERIÊNCIA REAL NA FEB – 1944 – 1945

Este pequeno caminhão de ¾ de toneladas foi desenvolvido pela companhia Dodge

Brothers Corporation nos Estados Unidos e largamente empregado na segunda guerra mundial.

A Força Expedicionária Brasileira chegou a operar 148 deles só na configuração

 WC-51, tratando-se de um 4×4 equipado com um motor a gasolina de 6 cilindros com válvulas laterais e refrigerado a água. A força motriz era transmitida desde a caixa de quatro velocidades por meio de um curto eixo de transmissão, que ia até uma caixa de redução e daí aos eixos das rodas dianteiras e traseiras, podendo atuar sobre as quatro rodas simultaneamente ou somente nas duas traseiras

Seu chassi serviu de plataforma para várias versões largamente empregadas durante e após a segunda guerra mundial, nos mais variados países do mundo.

Sem dúvida um veículo muito robusto e de grande confiabilidade, tanto na sua parte mecânica como na sua configuração total, muito confiável e durável.

A presente matéria tem a finalidade de narrar a experiência de um destes veículos usados pelo Serviço de Intendência da FEB, na campanha da Itália, nos anos de 1944 e  45, mais precisamente o empregado pelo Segundo Sargento Geraldo Teixeira Rodrigues, do Pelotão de Sepultamento onde podemos ver a grande experiência aprendida e guardada  por mais de 50 anos.

À esquerda o 2º Sargento Geraldo Rodrigues Teixeira na frente de sua Dodge WC-51. Notar as marcações do Serviço de Intendência – FEB 210 E n.º 15. À direita Sargento Geraldo Rodrigues e Luiz Martins de Souza posando junto a Dodge WC-51 que operavam na Campanha da Itália em 1944/45. (Crédito das fotos: Geraldo T. Rodrigues)

Convocado para servir na FEB, este jovem sargento de apenas 21 anos de idade, embarcou com o 1º Escalão rumo aos campos de batalha na frente italiana em 1944. Lá chegando se tornou voluntário para servir no pelotão de Sepultamento, um árduo trabalho que realizou durante todo o período em que a FEB esteve na luta contra tropas do eixo.

Curioso é que ele narra em depoimento dado ao autor, lembrando que tomou contato com a Dodge WC-51 após ter estagiado um mês com o pelotão de Sepultamento do Exército norte-americano onde aprendeu este ofício. Em apenas uma semana aprendeu a dirigir este veículo, quando teve aulas de direção num campo de futebol, onde aprendeu a manejar e a opera-lo, recebendo sua carteira de motorista.

 

À esquerda Carteira de Motorista – vista frontal. À direita vista interna. Notar os tipos de veículos e qual podia dirigir. (Crédito da foto: Geraldo T. Rodrigues)

 

Feito isto ele narra suas incríveis aventuras pelos mais de 28.000 milhas percorridas nas estradas italianas, recolhendo os mortos não só brasileiros, mas americanos e até alemães após as duras batalhas.

 

Vista da traseira da Dodge WC-51 na localidade de Riola. Notar os “jerrycans” para combustíveis no alto da carroceria. Havia dois deles um com gasolina e outro com vinho para agüentar o rigoroso inverno. (Crédito da foto: Geraldo T. Rodrigues)

 

É interessante notar que seu veículo acompanhado de uma pequena carretinha tenha atuado por um longo período, sob as mais severas condições, sejam climáticas, sejam relativas aos diversos tipos de terreno, desde estradas asfaltadas a terrenos de difícil locomoção, em dias de sol, chuva e principalmente neve, coisa até então desconhecida pelas tropas brasileiras.

Vale aqui ressaltar que como ele mesmo diz teve pouquíssimos problemas com esta

viatura, ficando na mão apenas uma vez, quando ao tentar limpar o filtro de combustível que era de vidro, este veio a se quebrar, tendo de passar a noite com o veículo carregado de cadáveres até que na manhã seguinte conseguiu ser rebocado por um caminhão inglês que o levou até uma oficina do exército norte-americano, onde o veículo foi reparado e voltou à ativa.

Numa outra situação a água do radiador congelou e ele foi novamente rebocado até outra oficina, onde os mecânicos de posse de um maçarico colocaram a sua Dodge novamente em funcionamento, entregando a ele um vidro contendo um líquido verde (anti- congelante) que ele toda vez que fosse completar a água, colocasse um pouco daquilo, o que fez regularmente e nunca mais teve problemas desta natureza.

 

Dodge WC-51 da FEB em manutenção. Notar o veículo com a roda traseira apoiada sobre um banco de jardim. Dodge WC-51 do Batalhão de Saúde da FEB. (Crédito da foto: Coleção autor)

 

O mais comum era o pneu furar, e nunca era consertado, simplesmente numa destas oficinas era substituído por outro novinho, continuando a rodar com e sem correntes nas rodas na seu trabalho em recolher os corpos de seus camaradas levando-os até o cemitério de Pistóia, quando brasileiro, ao de Vada quando americanos e os demais iam para outros cemitérios.

O curioso é que na grade dianteira de sua Dodge havia um capacete alemão  dependurado e nele a inscrição: FINITO…

 

Detalhe da Dodge do Sargento Geraldo Teixeira Rodrigues e enterro de um soldado brasileiro no cemitério de Pistória. Um dos muitos recolhidos por ele na Campanha da Itália em 1944-45. (Crédito das fotos: Geraldo T. Rodrigues e Coleção do Autor)

WC-51 da FEB com correntes nas rodas enfrentando neve e baixa temperatura e outra WC-51 sendo manutenida em uma oficina improvisada na Itália em 1944-45. (Crédito das fotos: Museu Capitão Pitaluga, Valença, RJ)

 

Mais tarde após a guerra estes veículos vieram a ser incorporados ao Exército Brasileiro que os usou até o final dos anos 70.

Fabricante: Dodge Brothers Corporation

Nome vulgar: Dodge ¾ tonelada

Modelo: WC-51 sem guincho

Classificação: Transporte não especializado

Guarnição e passageiros: 10

Peso: 2.694kg

Sistema elétrico: 06 volts

Motor: Dodge T214, 76hp, 6 cilindros, gasolina, refrigerado a água.

Capacidade de combustível: 113 litros

Consumo médio: 3,4km/l

Rampa máxima: 54%

Velocidade máxima: 86,8km/h

Raio de ação: 386km

 

Expedito Carlos Stephani Bastos
Pesquisador de Assuntos Militares da Universidade Federal de Juiz de Fora

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Comentários

  1. Na década de 80 o Exército repotencializou algumas, colocando um motor diesel MWM e recebeu a denominação de MP 34.
    A 2a Cia Com Bld, de Campinas as utilizou por algum tempo.
    Não passava de 70Km/h, mas não parava por nada.

  2. Acho que o nosso EB está muito mal servido de veículo leve para o cumprimento das suas missões em nosso território(Brasil) pois até mesmo em pequenas missões verificamos a fragilidade, o número reduzido, o sucateamento dos veículos leves que são usados. O que não deveria ser assim, porque o Brasil é um país de um poder nacional gigantesco, um país continente e vive acanhado, a 4ª economia do mundo e vive como se fosse um feudo. Acorda Brasil! Não se apecanhe porque é isso que os seus inimigos querem inclusive os maus brasileiros.
    Acho que o carro que mais se adapta ao nosso relevo é o HAMMER americano, inclusive a fábrica foi ou está sendo desativada, e é uma boa oportunidade do Brasil adquirir os seus direitos, e modernizá-lo, por ser um carro forte e com a cara do Brasil. “A PÁTRIA É CONSTITUÍDA PELOS MORTOS QUE A CONSTRUIRAM E PELOS VIVOS QUE TEM A OBRIGAÇÃO DE MANTÊLA VIVA E CHEIA DE HONRA E GLORIA PARA AS GERAÇÕES FUTURAS” – E só quem pode garantir isso, são os nossos soldados. Pensem nisso.

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