Injustiças contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I

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A recepção dos expedicionários, de volta ao Brasil, foi um acontecimento estrondoso, empolgante e colossal. Apoderou-se, irresistivelmente, das atenções de todos os brasileiros. Sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro – então Capital da República -, onde essas coisas acontecem com maior entusiasmo e ênfase, a festa da chegada varou dias, bulindo com todo mundo e parecia não ter mais fim.

O retorno Festejado - Foto www.exercito.gov.br

O Exército, que permaneceu no Brasil, alinhou-se, formando cordões de isolamento, ao longo das avenidas, para conter o povo, em suas manifestações, diante dos heróis que desfilavam ao desembarcar. Através de todos os meios de comunicação da época, os feitos dos soldados brasileiros, em terras da Itália, eram descritos e exaltados.

Juntando-se a essas exaltações patrióticas, ainda sob o calor das recepções, começou a aparecer um amontoado de vantagens a serem atribuídas aos ex-combatentes: iam ter direito a coisas que jamais sonharam – aos melhores empregos e vida boa, tranquila. Todas as portas estariam abertas para eles… Mas tudo vago. Nada definido e claro.

Nem todos voltaram fazendo festa: um capitão americano acompanha o soldado brasileiro Yacovo, o maior mutilado da FEB. Perdeu parte de uma perna, três dedos da mão direita e teve o corpo cheio de estilhaços. Foto escaneada do livro "Eu estava lá" de Elza Cansanção.

Promessas vãs, hipotéticas. E, não raro, meros engodos. Todos estes fatos – o estardalhaço das recepções e o anúncio das vantagens a serem concedidas – contribuíram para que fosse estabelecida uma ideia precipitada, momentânea e leviana, em torno dos feitos dos soldados e da importância da diminuta participação do Brasil, na guerra. Com isto, a maioria dos expedicionários, sobretudo os de espírito mais simples, convenceu-se, acreditando mais do que deveriam, em tudo que lhes acenavam e prometiam. Daí descuidarem-se da estabilidade do presente e da segurança do futuro, como se nada houvesse para se preocupar: eram heróis e estavam de retorno ao seio da Pátria.

Em contrapartida, em certas áreas, os ex-combatentes passaram a serem olhadas como superprivilegiados, criando-se, em torno deles, um clima de má vontade, precauções e até antipatias, pois no terreno das competições representariam uma ameaça, a preterir direitos e posições pretendidas ou conquistadas por outrem.

Agravando ainda mais a situação dos jovens que deveriam reingressar às atividades da paz, as autoridades civis e militares, incorreram em muitos descasos ou lapsos, altamente nocivos e lesivos aos interesses daqueles. Tanto assim é que não lhes concederam as férias (aliás, em dobro) a que teriam direito, antes da desmobilização; e, não procederam a um novo exame de saúde, também antes de desmobilizá-los.

Os nossos soldados foram irresponsavelmente abandonados à própria sorte... Foto www.exercito.gov.br

Se para serem mandados à guerra foram submetidos a rigorosos exames físicos, como nunca se vira, anteriormente, no Brasil, através dos quais só eram selecionados os de categoria especial, como e por que não os examinar de novo, no retorno?!

A guerra havia exigido daqueles rapazes despreparados e desinformados, sacrifícios enormes tanto de aspecto físico como emocional: foram atingidos por males e infecções; contraíram traumas e lesões os mais variados.

Passadas as festas da vitória, os expedicionários permaneceram uns poucos dias, retidos nos quartéis. E, de súbito, viram-se espremidos na parede, diante de uma instrução do então Ministério da Guerra: “Pede reengajamento agora ou será desmobilizado”. Uma resolução que não poderia ser tomada naquelas circunstâncias.

A Força Expedicionária, constituída, como fora, em sua imensa maioria, de convocados do interior, fácil seria deduzir que estavam todos ansiosos para retornar aos seus lares. E, da mesma forma, deveriam estar sendo aguardados, ansiosamente, pelos seus familiares. Além do mais, sentiam-se desiludidos e amargurados; na guerra, sofreram mais que quaisquer outros soldados; foram submetidos a vexames e decepções que os indignaram, refletindo, esse sentimento de indignação, contra o próprio Exército. Em tais condições, não se sentiam animados a continuar na farda. Tinham isto sim, muita pressa de retornar aos seus lares, rever a terra natal e a família. Estavam mortos de saudades de tantas, infinitas e pequeninas coisas, que só existem ou são melhores que em todos os outros locais do mundo, no torrão em que se nasceu. Queriam voltar para casa. E, como não lhes foram concedidas as férias, quando então teriam oportunidade de descansar e meditar sobre o que lhes convinha, permaneceram, indecisos, num curto período de ociosidade. A seguir, cumprindo-se a instrução do então Ministério da Guerra, deu-se a desmobilização em massa, de todos os expedicionários que deixaram de pedir reengajamento. A desmobilização atingiu não apenas os soldados, mas a quase totalidade dos graduados e dos oficiais de procedência civil.

Milhares de veteranos de guerra, muitos enfermos, com ferimentos ainda mal cicatrizados, incapacitados física ou mentalmente para exercer quaisquer atividades, desorientados, zonzos e aturdidos, portando mazelas e sequelas da guerra, viram-se, de um momento para outro, postos nas ruas, praças e estradas do Brasil. Em vez de serem tratados, instruídos e reabilitados, recebeu de supetão, a baixa. Até mesmo a passagem de regresso ao lar, deixou de ser fornecida a muitos deles.

Retornando da guerra, os pracinhas recebiam os cumprimentos da população brasileira. Brevemente seriam esquecidos, humilhados e tristemente abandonados à própria sorte. Foto escaneada do livro "Trinta Anos depois da Volta" - Octávio Costa

No lar, o ex-combatente sentiu-se deslocado e acanhado, como um estranho, entre os seus próprios familiares. Estes não estavam preparados para recebê-lo, sobretudo as famílias mais humildes e pobres. Perturbavam-no, bombardeando-o com tantas e estúpidas perguntas, boquiabertos e impertinentes, cheios de curiosidade: queriam saber tudo sobre a guerra; queriam saber tudo sobre o País estrangeiro, onde estivera; queriam saber por que embarcou como soldado e por que voltou como soldado; queriam saber se guerreou, se matou muita gente, se foi herói e por que não foi promovido nem trouxe medalhas? Enchiam-lhe os ouvidos de perguntas estonteantes, às quais não havia como explicar…

No final da guerra, muitos feridos foram transferidos dos hospitais da Itália para o Hospital Militar do Recife. Aí permaneceram algum tempo sem receberem as atenções e os tratamentos que necessitavam. Tão precária chegou a ser a situação deles, que insistiram em ter alta e serem mandados para casa. Daí a direção do hospital fez com que assinassem um termo de responsabilidade, pela atitude que haviam tomado. E os mandou embora. A concessão de condecorações dependia da conclusão de processo a tramitar na lenta burocracia militar. Quando, finalmente, a medalha era concedida, o agraciado já havia sido desmobilizado. E, embora os respectivos atos governamentais fossem publicados nos boletins das Armas e no DOU, nem sempre deles se tomava conhecimento. Quem lê DOU? Assim, até hoje, ainda permanecem retidas nas associações de ex-combatentes e no próprio Ministério do Exército, medalhas que jamais foram reclamadas ou chegaram às mãos dos agraciados – anônimos veteranos de guerra ou cadáveres deles.

Continua: Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II

Artigo composto de 7 partes:

Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte I
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte II
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte III
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte IV
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte V
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VI
Injusticas Contra os Ex-combatentes da FEB – Parte VII

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Sobre o Autor do Post

Maria Auxiliadora já escreveu 32 artigos para este site.

Maria Auxiliadora Mota Gadelha Vieira graduou-se em Medicina no ano de 1973, pela Escola Médica do Rio de Janeiro. Especialista em Ginecologia e Obstetrícia. Atualmente é Diretora da Junta Médica Pericial do Instituto de Previdência do Município de Fortaleza/CE. Desde menina dedicou-se à literatura, à poesia e ao teatro. Sonetista, trovadora e poetisa; participou de algumas antologias como “Poetas do Brasil” e “Escritores do Brasil” de Aparício Fernandes, “Em Busca do Poema Pérola”, “Coletânea Cidade do Aço” e entre outras obras. Criadora do site “Maux HomePage” – http://www.mauxhomepage.com - onde disponibiliza os temas que lhe interessam: web design, musica, poesia, história, educação infantil. Destaque para a seção “Piquete Cidade Paisagem”, onde enfatiza o carinho e a saudade de sua terra natal, sua gente, tradições, folclore e culinária. Filha e sobrinha de ex-combatentes da FEB, em homenagem a eles iniciou um trabalho de pesquisa sobre a atuação do Brasil na Segunda Guerra Mundial. Essa pesquisa é disponibilizada em seu site, na seção "Um Herói nunca Morre", E agora aqui no Segunda Guerra.org; tendo como único objetivo imortalizar a lembrança desses bravos brasileiros anônimos e esquecidos.


Comentários

  1. FERNANDO disse:

    Eu ja servi o Exercito Brasileiro e vi que la vc não tem o devido valor que um soldado merece fico chocado com a condição que nossos soldados da 2 guerra foram tratados é vergonhoso são HEROIS e arriscaram suas vidas pela Patria e depois chutados é lamentavel!

  1. [... A recepção dos expedicionários, de volta ao Brasil, foi um acontecimento estrondoso, empolgante e colossal. Apoderou-se, irresistivelmente, das atenções de todos os brasileiros. Sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro ...]

  2. [... A recepção dos expedicionários, de volta ao Brasil, foi um acontecimento estrondoso, empolgante e colossal. Apoderou-se, irresistivelmente, das atenções de todos os brasileiros. Sobretudo, na cidade do Rio de Janeiro ...]

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