Os 33 do Pacífico – Como a FAB quase lutou contra os Japoneses

O 2º Grupo de Aviação de Caça da FAB queria combater contra as forças japonesas

Por: Paulo Roberto Bastos Junior / Helio Higuchi e Ricardo Lavecchia

No início de 1942, depois que o Brasil rompeu relações diplomáticas com os países do Eixo, o Brasil passa a ser alvo da investida de submarinos alemães e italianos, resultando na morte de centenas de brasileiros e causando enorme comoção no País, gerando uma inédita reação popular, exigindo retaliação.

Esta contínua agressão motivou a declaração do estado de guerra contra a Alemanha e Itália em 31 de agosto do mesmo ano. De forma surpreendente, sem nenhum preparo ou tradição bélica, o Brasil conseguiu enviar ao teatro de operação europeu uma Força Expedicionária do Exército e dois esquadrões da recém-criada Força Aérea Brasileira (FAB): a 1a Esquadrilha de Observação e Ligação (1o ELO) e o 1º Grupo de Aviação de Caça (1oGAvCa), o famoso “Senta a Pua”.

O 1oGpAvCa, composto por mais de 300 homems, sendo 42 pilotos formados pela FAB, e treinados por instrutores da Força Aérea do Exército dos Estados Unidos (USAAF), no Panamá, embarcou para a Itália em 19 de setembro de 1944, chegando em Livorno no dia 6 de outubro, passando a integrar o 350th Fighter Group da USAAF, começando a voar em 31 outubro nos míticos caças Republic P-47D Thunderbolt onde, até 04 de maio de 1945, realizaram 445 missões, 2.550 missões individuais e 5.465 horas de voo operações de guerra, além de vários atos de extrema eficiência, como no dia de 22 de abril de 1945 quando, reduzido a apenas 22 pilotos, cumpriu 44 missões de combate. Um feito histórico reconhecido até por seus pares.

Ao final do conflito, a FAB havia perdido mais da metade de seus pilotos, mas foi capaz de realizar apenas 5% das missões de combate do XXII Tactical Air Command, mas foi responsável pela destruição de 85% dos depósitos de munições, 36% dos depósitos de combustível, 28% das pontes (19% danificadas), 15% dos veículos motorizados (13% danificados) e 10% dos veículos hipo-móveis (10% danificados). Assim, foi distinguida com a Presidential Unit Citation, uma horraria de mais alto nível concedida pelo governo dos Estados Unidos.

Essa história contada e recontada por várias pessoas é muito conhecida. Contudo, o que nem todo mundo sabe é que, em 17 de agosto de 1944, depois do 1oGAvCa já ter chegado à Itália, foi criado no Brasil o 2º Grupo de Aviação de Caça (2o GAvCa), equipado com os recém incorporados Curtiss P-40N Warhawk, com o objetivo de substituir os pilotos enviados para Europa, na expectativa de que o conflito viesse a se prolongar. Os aspirantes do 2º Grupo de Caça haviam sido escolhidos para serem treinados no Brasil, enquanto um outro grupo, que tinha maior familiaridade com a língua inglesa, foi enviado para os Estados Unidos e Panamá, onde a USAAF mantinha uma unidade de proteção na região do Caribe.

A unidade escolhida para sediar o 2º Grupo de Caça foi a Base Aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro (RJ), então comandada pelo coronel Ismar Brasil. O grupo, liderado pelo capitão Ildeu da Cunha Pereira, contava com 32 aspirantes a oficiais aviadores. Para o seu preparo e treinamento, foram designados oficiais da USAAF comandados pelo veterano coronel Norval C. Bonawitz, ex-comandante dos míticos Flying Tigers, o 74th Fighter Squadron, que operava no teatro do Pacífico contra os japoneses, e que tinha em seu curriculum o fato de ter abatido dois caças japoneses em uma mesma missão.

Cabia à equipe norte-americana repassar seus conhecimentos e experiências sobre os P-40, treinar os pilotos e equipes de solo em relação ao avião, como toda a parte mecânica e, principalmente, as técnicas de combates aéreos, bombardeio de mergulho, voos rasantes, apoio às tropas em solo e ataques contra alvos móveis e fixos, seja em terra ou no mar, dentro da USBATU (United States- -Brazil Air Training Unit). As patrulhas e treinamentos aconteciam entre o espaço aéreo da Barra da Tijuca e o extremo da Restinga da Marambaia, e um estande de tiro fixo foi montado em Jacarepaguá. Em Santa Cruz, ao redor do hangar originalmente construído para abrigar dirigíveis, foi montado um alojamento para os oficiais nos moldes da frente de combate para que melhor se familiarizassem com os rigores do conflito. Dentro do hangar eram feitas todas as manutenções das aeronaves e armamentos, e alí também existiam salas de aula para as instruções de voo. Todo o ambiente da base era baseado em um local de guerra; um ambiente de campanha, literalmente.

Termina a luta na Europa

O final da Segunda Guerra Mundial no continente europeu, em abril de 1945, se por um lado foi um mom

ento de alegria, por outro, representou uma grande frustração para os pilotos do 2º GAvCa. Afinal, tinham sido rigorosamente preparados para combater e pensar que já não seria mais necessário, junto à possibilidade da suspensão das atividades, tornou-se motivo de preocupação. Um alento para aqueles jovens surgiu em 06 de junho de 1945, quando o Brasil, em solidariedade aos aliados que ainda lutavam no front asiático, declarou guerra ao Japão.

 

Foi se alastrando entre os integrantes do 2º GAvCa, a possibilidade do seu envio para combater no Pacífico sem, no entanto, que houvesse nenhuma intenção oficial nesse sentido. Ainda no mês de junho, durante uma visita do ministro da Aeronáutica, Joaquim Pedro Salgado Filho, o tenente Roberto Macedo Vinhais, encarregado de falar pelo grupo, explicou que todos desejavam partir para o campo de batalha. Salgado Filho ficou surpreendido e, ao mesmo tempo, emocionado com aquela manifestação. Respondeu que embora não houvesse nada de concreto, caso a FAB fosse enviada para aquele teatro de operações, os integrantes do 2º GAvCa seriam os primeiros.

Uma reportagem

A declaração do ministro foi o suficiente para que continuassem o treinamento com a máxima dedicação. Quando a famosa revista semanal “O Cruzeiro” decidiu fazer uma matéria sobre aqueles pilotos, toda a atenção foi dada para que, com a publicação de uma matéria na então revista mais importante do País, de certa forma, isso ajudasse a convencer o governo a enviar um contingente para lutar contra os japoneses.

Assim, todas as instalações de Santa Cruz foram franqueadas ao repórter David Nasser e ao fotógrafo Jean Manzon para que vissem de perto o dia a dia dos treinamentos, sendo disponibilizado, inclusive, um bombardeiro B-25 Mitchell, pilotado pelo próprio capitão Ildeu, para levar ambos a documentar práticas de treinamento de 12 P-40 em voo, comandados pelo tenente José Veloso de Sousa. O resultado foi um trabalho de oito páginas, com inúmeras fotos de alta qualidade, e que foi às bancas no dia 07 de julho, sob o título de “Os 33 do Pacífico”.

Os treinamentos eram diários e incessantes, causando uma vítima fatal entre os pilotos, o aspirante Sá de Osório, no P-40N FAB4062. Segundo relatos, durante um treinamento de tiro contra um alvo rebocado, efetuou uma rajada muito longa, aproximando-se demais, acabando por se chocar, caindo junto.

Menos de um mês após a publicação da matéria, os Estados Unidos lançam bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, levando à rendição, em 28 de agosto, do Império do Japão.

Com o final da guerra, cessaram aqueles intensos preparativos, com os militares norte-americanos também retornando ao seu país. O desejo de serem enviados para combater no céus do Pacifico tinha terminado. De qualquer forma, o título cunhado pelo “O Cruzeiro” permaneceu por muito tempo como denominação do Grupo.

Com o regresso do 1º GAvCa, em julho de 1945, a unidade teve seu comando substituído pelos oficiais veteranos da campanha da Itália, que assumiram as funções de comandante, oficial de operações e comandantes das esquadrilhas, até que, com a chegada dos P-47, os P-40 foram transferidos para o 3º Grupo de Caça, sediado em Porto Alegre (RS).

Em Outubro de 1949, depois de diversas mudanças de nome e estrutura, os dois grupos se fundiram no 1º Grupo de Aviação de Caça, com dois esquadrões, sendo o segundo, o 2º/1º GAvCa, o “Esquadrão Pif-Paf”, o herdeiro legítimo daqueles bravos.

REFERENCIAS:

MAGALHÃES MOTTA, J.E. “Força Aérea Brasileira 1941-1961 Como eu a ví”. Rio de Janeiro INCAER 1992

MANZON, Jean; NASSER, David. ‘Os “33” do Pacífico’. Rio de Janeiro: Revista O Cruzeiro, 7 de julho de 1945.

Fonte: Revista Tecnologia e Defesa – Edição 138 – Ano 2014

sobre Ricardo Lavecchia

Pesquisador amador e desenhista. Natural de Santo André, hoje com 39 anos está a 15 anos pesquisando sobre o tema Segunda Guerra Mundial e a participação do Brasil na guerra, sempre buscando temas desconhecidos e pouco divulgados.

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