O sol brilha forte sobre as praias de Okinawa, no Japão, mas, para Walter LaSota, de 99 anos, e Neal McCallum, de 98 anos, o que ilumina a memória são as lembranças de um passado que nunca se apaga. Oitenta anos depois da Batalha de Okinawa, um dos capítulos mais sangrentos da Segunda Guerra Mundial, esses dois veteranos do Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos voltaram ao lugar onde a vida deles mudou para sempre. E não estão sozinhos nessa volta ao tempo – a emoção os acompanha em cada passo, em cada relato, como se o som das bombas e o peso do medo ainda ecoassem no ar.

Walter LaSota, que serviu na Companhia I do 22º Regimento da 6ª Divisão dos Fuzileiros, pisou novamente em Toguchi Beach, uma das áreas onde os americanos desembarcaram em 1º de abril de 1945. Ele carrega no peito duas medalhas Purple Heart, honrarias por ter sido ferido em combate, mas também carrega uma história que não esquece. Em maio de 1945, no topo de Sugar Loaf Hill, em Naha, uma bomba japonesa o arrancou de um abrigo improvisado. “Eu estava com outro fuzileiro, um homem de 33 anos que eu chamava de ‘Pop’. Ele gritou ‘Mergulhe!’ e ‘Bomba!’. Quando explodiu, fui jogado morro abaixo. Não ouvia, não via nada. Até hoje não sei o que aconteceu com ele, se morreu ali ou se os japoneses o pegaram”, conta LaSota, com a voz tremendo de quem revive o instante.

A Batalha de Okinawa durou quase três meses, de abril a junho de 1945, e deixou marcas profundas. Mais de 12 mil soldados americanos morreram, outros 37 mil ficaram feridos. Do lado japonês, cerca de 90 mil militares perderam a vida. Mas o sofrimento não parou aí. Estima-se que entre 100 mil e 188 mil civis de Okinawa – quase um terço da população da ilha – também morreram no fogo cruzado, segundo historiadores como Cord Scott, professor da Universidade de Maryland, e Marc Gallicchio, da Universidade Villanova. “Foi uma batalha tão devastadora que ajudou a decidir o uso da bomba atômica em Hiroshima e Nagasaki”, explica Scott, lembrando os ataques de agosto de 1945 que encerraram a guerra.
Enquanto LaSota revisitava Toguchi Beach com apoio da Eagle Society, Neal McCallum, da Companhia Fox do 29º Regimento, subiu novamente Sugar Loaf Hill, ao lado da Best Defense Foundation. Neal estava lá quando os fuzileiros tomaram o morro em 18 de maio, um ponto estratégico para avançar sobre Naha e cortar as linhas japonesas. No dia seguinte, uma explosão vinda do Castelo de Shuri atingiu sua perna direita. “Eu estava saindo do meu abrigo, dei uns 150 passos, e os canhões abriram fogo. Fui atingido. Horas antes, meu amigo, o sargento Victor Hanson, tinha sido morto por uma metralhadora”, relata McCallum, com os olhos fixos no horizonte. Ele não esquece Hanson, que costumava dar socos leves em seu ombro como sinal de amizade. “Penso nos meus amigos que deixei aqui todos os dias. E na minha perna também. Mas digo que foi um preço pequeno por estar vivo”, completa.
A experiência desses homens não é apenas uma página da história – é um grito humano que atravessa décadas. Okinawa foi um palco de dor, coragem e sobrevivência. LaSota ainda se pergunta pelo destino de “Pop”. McCallum ainda sente o peso dos amigos que não voltaram. Oitenta anos depois, eles caminham sobre o solo que os marcou, trazendo à tona o que viveram na pele. A Segunda Guerra Mundial não é só números ou datas. É feita de pessoas como eles, que carregam no peito as cicatrizes de um tempo que o mundo não pode esquecer.