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Um país de mais de 60 milhões de habitantes que passava à atitude de beligerância, não podia deixar de impressionar os dirigentes e os Estados-Maiores do Eixo Roma-Berlim. Era um novo reservatório que abriria os seus diques, com a possibilidade, ainda, de carrear outros países do Continente, além da massa de recursos de toda a natureza que passariam a desequilibrar a balança contra Hitler e seus aliados.

Entretanto, o Brasil não soube valorizar aquele passo gigantesco e perigoso. Expôs todo o seu complexo organismo federativo às insígnias e violências de um inimigo poderoso, com a agravante de ser um país praticamente desarmado, que não possuía o mais elementar planejamento para uma remotíssima guerra extracontinental.

Naquela emergência, o eco da nossa reação não teve a repercussão que merecia. Vivíamos sob o governo de uma ditadura, sem que o povo brasileiro, propriamente, tivesse a faculdade de examinar, através de seus representantes diretos, os atos da política internacional que envolvesse, face ao mundo, os legítimos interesses da Nação brasileira.

O governo fazia manobras em defesa dos seus próprios interesses. Exaltava os brios nacionais, ofendidos com os sucessivos torpedeamentos de navios brasileiros, e jogava a sua cartada incorporando-se à vontade nacional que aspirava colocar-se ao lado das democracias, no combate ao mundo totalitário nazi-fascista.

Para muita gente, a escolha do Comando, das Unidades constitutivas, e do Estado-Maior Expedicionário, significava que a FEB estava pronta para partir. Mas, a realidade era outra. Sabia-se que a 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária seria uma das Divisões da FEB, mas esta verdadeiramente não existia. O seu Comandante partia para o Teatro de Operações para atender a um convite do Alto Comando Estadunidense. Ia ver a guerra de perto, sentir-lhe as reações, os horrores e a complexidade do Comando. Muito distantes estávamos da realidade. Certamente algumas observações úteis poderiam ser colhidas. O relatório dessa viagem não foi difundido. Não provocou no seio da Divisão a efervescência necessária. Entretanto – honra seja feita ao Comandante da Divisão -, longe de arrefecer o seu ânimo, na comparação entre o que presenciara e a situação em que se encontrava a tropa que deveria comandar, a sua atividade se multiplicou, revestida de uma moral inquebrantável.

Gen. Mascarenhas de Moraes ao centro. Foto da FGV - CPDOC

Na ausência do General Mascarenhas, respondeu pelo Comando o General Euclides Zenóbio da Costa, chefe dinâmico, entusiasta de sua profissão, que assim se apresentava e assim era conhecido desde os primeiros passos do oficialato. Possuía três grandes qualidades, entre as que ornavam sua personalidade de homem simples e sem atavios: era bravo entre os que mais o fossem, em quaisquer circunstâncias: organizador meticuloso, que sabia ter êxito em todos os empreendimentos; era voluntarioso e decidido, como um verdadeiro chefe de primeiro plano. Assumindo, interinamente, as funções de Comando, não perdeu tempo. Sentiu a gravidade do atraso dos preparativos e da metamorfose que se deveria operar no organismo das tropas, que passavam a integrar a Divisão, particularmente a sua Infantaria . Organizou prontamente um plano para inspecionar todas as unidades, principalmente as sediadas fora do Rio de Janeiro: o 6º Regimento de Caçapava (São Paulo), 11º Regimento de São João Del Rei ( M.Gerais) e o 1º Grupo de Artilharia sediado em Quitaúna (São Paulo).

Sentiam todos que pouco tinha progredido. Mas era preciso ver de perto e, mais do que isso, enfrentar o choque inevitável ante a diluição do Comando, porque aquelas unidades continuavam a receber e cumprir ordens dos seus comandos divisionários normais. Estes, voluntária ou involuntariamente, exerciam uma ação retardadora de tal modo nociva, que o próprio moral da tropa e a sua preparação psicológica se desagregavam a olhos vistos, principalmente na execução do trabalho de recomposição dos efetivos. E o Estado-Maior da Divisão Expedicionária, sem poder exercer uma completa intervenção nesse processo de lenta integração, via seu trabalho sujeito às mais variadas restrições.

A visita às unidades situadas fora do Rio, com a presença do General Zenóbio da Costa, que procurava sobrepor sua autoridade às manobras retardadoras e à resistência passiva encontradas, teve, pelo menos, o mérito de constatar a gravidade da situação e fazer sentir aos comandos que a falta de espírito de cooperação poderia acarretar consequências imprevisíveis, inclusive na anulação dos compromissos assumidos com os nossos aliados.

O Alto Comando da FEB - Cordeiro de Farias, Zenobio da Costa, Mascarenhas de Moraes e Falconiere

Em todas as unidades visitadas constatava o General Zenóbio a balbúrdia em que estavam mergulhadas, principalmente nas questões de organização dos novos tipos de unidades, subunidades e unidades elementares, agravados os problemas com as dificuldades quase invencíveis da seleção física. Os corpos de tropa continuavam sem poder alcançar os efetivos fixados e, com isto, distanciados de qualquer progresso na instrução da tropa, cuja importância não era demais encarecer.

Por outro lado, a inexistência dos armamentos e materiais diversos que seriam manejados nos campos de batalha, e completamente desconhecidos no Brasil, não permitia a mínima iniciativa dos quadros para vencer esse estado de torpor e de angústia . E assim, enquanto o Gen. Mascarenhas de Moraes fazia uma viagem de experiência à Itália e ao norte da África, com o seu grupo de acompanhantes, os problemas se amontoavam aqui no Brasil, complicando cada vez mais a missão que havia recebido.

A data de 15 de novembro estabelecida pelos atos ministeriais para que se completasse a organização das unidades, meramente teórica e sem qualquer base real, foi ultrapassada sem serem alcançados os objetivos ansiosamente almejados.

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Comentários

  1. Onde eu consigo o relatorio dos ex pracinha da feb, quem participou da IIGuerra?…….

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