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As Consequências do Projeto Lebensborn na Noruega

Criação do Projeto Lebensborn

Heinrich Himmler - criador do projeto lebensborn

O projeto Lebensborn (Fonte da Vida) foi idealizado por Heinrich Himmler e posto em prática a partir do dia 12 de Dezembro de 1935. O pretensioso projeto tinha como objetivo a criação de uma super-raça, a chamada raça ariana.  Diversas residências secretas foram construídas, onde homens e mulheres “racialmente puros” tinham relações sexuais a serviço do governo nazista. As crianças frutos dessas relações eram adotadas e educadas pelo governo.

Na Alemanha nazista, o Projeto Lebensborn foi um dos variados programas criados por Heinrich Himmler – o chefe das SS e arquiteto do holocausto – com o propósito de provar e consolidar a teoria nazista da “raça pura” – a raça ariana. Quando a Segunda Guerra Mundial terminou, o mundo tomou conhecimento do tal programa que consistia na criação de residências secretas para que homens e mulheres “racialmente puros” copulassem. As crianças nascidas dentro do programa eram criadas e educadas pelo Estado alemão, e destinadas a formar o núcleo de uma “raça forte”, puramente ariana. Sob a administração da SS, a política do Lebensborn foi instaurada também em outros países europeus, como a Noruega e a Polônia.

O confronto mundial que mobilizou todo o planeta ainda deixa rastros, e alguns, ocultos por décadas nos países envolvidos, aos poucos vem sendo conhecidos. Um desses fatos é a das crianças lebensborn (fonte da vida, em alemão) na Noruega, filhos de militares nazistas com norueguesas nascidos durante o domínio do Terceiro Reich sobre o país escandinavo.

Entre 1940 e 1945, o governo norueguês ficou exilado na Grã-Bretanha e uma administração de Berlim ocupou seu lugar. Os invasores causaram repugna na população e diversos noruegueses participaram da resistência contra os Alemães. A história dos lebensborn noruegueses, porém, ficou esquecida durante décadas, e só voltou superfície graças à coragem de alguns deles, que ousaram desafiar a postura oficial de ignorá-los.

Também conhecidos na Noruega como “krigens bam”, os lebensborn foram uma conseqüência até certo ponto natural da entrada de 500 mil nazistas num país cuja população, em 2007, girava em torno dos 4,6 milhões de habitantes. Porém sua origem se dá em dezembro de 1935, quando a Sociedade Lebensborn foi criada na Alemanha por Heinrich Himmler.

Enfermeira segurando criança do Projeto Lebensborn

Os militares eram incentivados a terem mais filhos tanto na pátria quanto nos países ocupados, principalmente na Escandinávia, cujas características genéticas (louros de olhos azuis) eram tidas como arianas clássicas.

O governo de Berlim lhes assegurava que dariam guarda à criança caso o pai não optasse em casar com a mãe ou se já fosse casado na Alemanha. A Sociedade Lebensborn não apenas custeava o parto como fornecia ajuda financeira e objetos como carrinhos e berços. Os frutos dessas relações – mais de 8 mil indivíduos conhecidos – seriam, então, uma elite racial.

As norueguesas que se relacionaram amorosamente com nazistas eram mal vistas pela população. O governo do país no exílio também tomou partido contrário, alertando via rádio que “as coisas se tornariam cada vez mais desagradáveis a elas após os alemães deixarem a Noruega”. E foi exatamente isso que aconteceu. Terminado o conflito, milhares dessas mulheres tiveram suas cabeças raspadas e foram obrigadas a desfilar pelas ruas sob os gritos de “prostitutas alemãs”. Muitas ficaram desempregadas e foram presas ou confinadas, tendo sobre si um trauma que as acompanhou pelo resto da vida.

Logo após o fim da Segunda Guerra, o governo norueguês quis deportar os lebensborn para a Alemanha, porém a miséria que assolava o país fez com que os aliados impedissem a proposta. Outra idéia – enviá-los para a Austrália – também não teve sucesso, e o destino dessas crianças foram as instituições para crianças abandonadas, orfanatos ou, pior ainda, hospitais para doentes mentais.

Crianças internadas em hospitais para doentes mentais

A opinião das autoridades da época era que as mulheres que haviam se relacionado com os soldados nazistas só poderiam ser retardadas mentais, deficiência que também afetaria seus filhos. Na rotina da vida dessas pessoas – hoje na casa dos 70 anos -, maus-tratos, abusos físicos e mentais foram comuns.

Apenas há alguns anos um grupo de lebensborn procurou a Justiça norueguesa para combater o que considera a cumplicidade do governo do país na sua tragédia. A partir daí o mundo passou a conhecer a trajetória desses “estrageiros” em sua própria terra.

Gerd Fleischer

Gerd Fleischer, é uma dessas pessoas frutos do lebensborn, é um exemplo claro do drama. Sua mãe era descendente de lapões – o povo de origem tártara que habita o norte da Escandinávia -, a SS não permitiu que ela fosse enviada à Alemanha para adoção.

Os primeiros anos de sua infância, com a mãe na vila onde nascera, foram tranqüilos, porém a sua realidade mudou drasticamente com a derrota nazista. Quando a sua mãe se casou com um ex-combatente da resistência local, além das surras e maus-tratos que já sofria na escola, em sua casa começou a ter a mesma sorte.

Gerd fugiu de casa aos 13 anos e viveu diversos anos como sem-teto. Quando tinha 18 anos, saiu do país e apenas retornou 18 anos depois. Nesse período, reconstruiu a vida e encontrou seu pai alemão – que negou conhecer tanto ela quanto à sua mãe. Gerd o processou e nos tribunais, seu pai biológico assumiu a paternidade.

Ao retornar à Noruega, Gerd levava – além de dois meninos de rua que adotara no México – a firme convicção de levar à Justiça casos como o seu. Ela criou uma organização, Seif (abreviatura em inglês de “Auto-Ajuda para Imigrantes e Refugiados”) para, segundo ela, “lutar por justiça para todos”.

Paul Hansen

Paul Hansen viveu outra face obscura dessa tragédia. Ele foi confinado num hospital para doentes mentais e, quando saiu de lá, 20 anos depois, já tinha perdido todas as oportunidades de educação normais a uma pessoa de sua idade. Ele fez parte do primeiro grupo de lebensborn a processar o governo norueguês, no início deste século.

Werner Thiermann com a foto de seu pai alemão

WERNER THIERMANN nasceu em 1941, oriundo do caso de um sargento nazista com uma funcionária norueguesa da base alemã em Lillehammer. Ele jamais conheceu o pai, transferido para frente russa logo após sua mãe engravidar. Quando a guerra terminou, sua mãe foi confinada e o garoto viveu sua infância em orfanatos e instituições para crianças abandonadas, sofrendo todo tipo de abuso.

O máximo que as ações dos lebensborn conseguiram foi a oferta, para alguns deles, de uma pequena ajuda financeira como compensação. A declaração oficial – aceita inclusive na Corte Européia de Direitos Humanos em 2007 – é que tais incidentes aconteceram muitos anos atrás.

A advogada das “crianças da guerra”, Randi Spydevold, não esconde se inconformismo: “Há uma hipocrisia no coração da Noruega, lar do Prêmio Nobel da Paz, um país que se orgulha de resolver conflitos pelo mundo, mas nega reconhecer as suas próprias vítimas da guerra.”

Os testemunhos dos lebensborn mostram claramente que as marcas de crimes como esses jamais prescrevem numa vida.

Sobre Andre Almeida

Ex-militar do exército, psicólogo e desenvolvedor na área de TI.Sou um entusiasta acerca da Segunda Guerra Mundial e criei o site em 2008, sob a expectativa de ilustrar que todo evento humano possui algo a ser refletido e aprendido.

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