FEB-logoDesde a sua criação até o último disparo, a FEB sempre lutou em duas frentes. Uma delas, a militar propriamente dita, no front apenino. A outra, de ordem política, na retaguarda brasileira, onde o underground antigetulista via na luta dos “pracinhas” e na sua consequente vitória, fatores importantes – senão decisivos – para a derrubada da longa ditadura “estado-novista”.

A partir de fevereiro de 1945, cada general da FEB passou a ser considerada pela oposição, no Brasil, peça imprescindível na grande jogada política que se iniciava. E, disso tiveram ideia imediata os correspondentes brasileiros que na Itália estavam acompanhando a campanha da Força Expedicionária.

De uma hora para outra, passamos todos os correspondentes de guerra, a serem bombardeados por telegramas vindos do Brasil, assinados por diretores dos respectivos jornais, dando conta do que se estava passando no país, no plano político, e instando para que conseguissem de qualquer maneira declarações dos generais brasileiros a respeito daqueles acontecimentos.

O general Mascarenhas de Moraes soube do que se estava passando no setor dos correspondentes, apressando-se em fazer ver aos seus generais a inconveniência de qualquer entrevista de caráter político. A FEB está na Itália para lutar, e não para fazer política, teria dito aos seus comandados imediatos o equilibrado e austero comandante do nosso corpo expedicionário. E sua ordem foi rigorosamente cumprida. Mas o fato é que se a luta da FEB era inspiração e mesmo emulação para a luta do underground antigetulista, a partir de fins de fevereiro os acontecimentos que se desenrolavam no Brasil serviram por sua vez para dar sentido à luta dos nossos soldados na Itália, o que talvez explique o entusiasmo novo e o ardor revigorado que, a partir da conquista de Monte Castelo, deram o tom da última fase da luta expedicionária, no vale do Panaro e do Pó.

Ninguém podia dar entrevista, o que era compreensível, mas todo mundo falava – em oculto. E a verdade é que a grande maioria da FEB, oficiais e soldados, empolgavam-se com as notícias vindas do Brasil, que diziam estar a ditadura “estado novista” vivendo, como as tropas do marechal Kelssering, ali do outro lado, os seus últimos momentos.

Muitas garrafas de vinho, abandonadas pelo inimigo em retirada, foram abertas, nas rápidas tréguas da vertiginosa ofensiva de abril, para uma saudação aos que no Brasil acuavam a ditadura. Da reserva ou da ativa – e a FEB era a metade de cada uma -, todos festejavam as vitórias da segunda frente, da frente interna.

Antes de cair, porém, o inimigo interno da FEB assestou-lhe o último golpe, e o mais fulminante. A portaria do dia 6 de julho de 1945, assinada pelo ministro da guerra, general Dutra, e que desmobilizava e dissolvia a FEB antes mesmo que ela chegasse de volta ao Brasil. A partir desse dia, a FEB deixou de existir como força regular do exército. Passou a ser um estado de espírito.

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General Dutra - O Inimigo da FEB

Outra derrota: nas primeiras eleições democráticas no País, depois da longa hibernação “estado novista”, o vitorioso não foi o Brigadeiro Eduardo Gomes, herói da FEB, mas precisamente o general Dutra, no qual muitos expedicionários identificavam o principal inimigo do corpo expedicionário. E o fato é que, apontadas algumas exceções, os melhores elementos da FEB – a começar pelo seu comandante, o general Mascarenhas de Moraes – foram, no governo Dutra, relegados a um segundo plano na hierarquia do comando do exército, ao mesmo tempo em que se estabelecia nos quartéis, por parte daqueles que não tiveram oportunidade de lutar na Itália, certa má vontade para com a FEB e os seus privilégios.

Frustrações e ressentimentos foram-se acumulando no após-guerra da FEB. A culpa maior dessa marginalização a que foram submetidos, os oficiais da FEB não a punham nos seus camaradas de profissão, mas nos políticos civis que haviam permitido a sobrevivência, na democracia restaurada, da maioria dos elementos que durante anos haviam servido à ditadura e ao ditador.

Fundada ainda no governo Dutra, a Escola Superior de Guerra – a chamada Sorbonne – fez-se a depositária de tais sentimentos. Foi a ESG quem impôs, como ponto pacífico, a tese de que “as elites civis fracassaram”, e que, por isso, fazia-se necessária uma completa reformulação dos quadros políticos do país. Como substituto para a elite civil “fracassada”, a ESG oferecia uma elite militar estudiosa, aplicada, em dia com os problemas do país, impaciente por participar não só da solução desses problemas, mas da direção de toda a vida nacional. Mas a situação da anti-FEB parecia ter o fôlego de sete gatos.

Depois de Dutra, veio Juscelino. A impaciência da elite militar já não se continha, e daí as esporádicas explosões de rebeldia, como o discurso do então coronel Jurandyr Mamede, no enterro do general Canrobert, como as rebeliões sem sentido prático de Jacareacanga e Aragarças. E como aquela tentativa do triunvirato militar do general Denys, do almirante Heck e do Brigadeiro Moss – todos teleguiados à distância pela ESG – no sentido de evitar a posse do Sr. João Goulart, quando da renúncia de Janio Quadros.

No dia 1º de Abril, com o desmoronamento puro e simples do arenoso governo de João Goulart, a FEB chega finalmente ao poder. É um poder total. Do norte ao sul, de leste a oeste, a FEB domina os cargos e postos mais importantes do País, civis e militares. Mas, a FEB chega ao poder depois de 19 anos de frustrações e ressentimentos. E como ressentidos e frustrados é que seus elementos, ou pelo menos a maioria deles, tem-se conduzido nos diversos comandos que assumiu – ou seja, com rancor e espírito de vingança. Essa necessidade de desforra tem-se manifestado principalmente contra elementos civis. Professores, intelectuais, políticos, estudantes, em todos os recantos do  país pode ser apontado como as principais vítimas dessa revanche.

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Escola Superior de Guerra

Quando a Escola Superior de Guerra, fruto da FEB, deu às forças armadas uma “inteligentzia” privada, exclusivamente sua, a “inteligentzia” civil passou a ser olhada com desconfiança e, nalguns casos, como inimiga. E aos poucos a ESG restabelecia no País a realidade de uma casta militar, cuja abolição fora sem dúvida a maior vitória da FEB, e para a qual contribuíra inapelavelmente a fusão, no campo de batalha, do cidadão convocado e do soldado profissional, ambos empenhados na mesma luta, ambos enfrentando os mesmos perigos. Da mesma maneira como foi marginalizada durante dezenove anos, a FEB marginaliza agora a inteligência civil. E num Estado de fato, que tem o seu comando, permite que suas tropas invadam universidades, prendam professores, intelectuais, estudantes, substituindo a Polícia Política nas suas quase sempre torpes tarefas repressivas. E não deixa de ser bastante significativo o fato de o general Cordeiro de Faria, o artilheiro da campanha italiana, ter escolhido a antiga sede do ISEB, “antro do intelectualismo subversivo e comunizante”, para nela instalar o seu Ministério, criado pela revolução para coordenar, dirigir e vigiar de perto as atividades político-partidárias do País.

Na primeira quinzena de abril de 1945, véspera da ofensiva da primavera e da conquista de Montese, a frente de combate da Força Expedicionária Brasileira estendia-se por 15 km, ampla para a luta de uma divisão. Dezenove anos depois, com a vitória do 1º de Abril, a FEB domina uma frente de luta, no Brasil, que corre paralela às próprias fronteiras nacionais. De norte a sul, de leste a oeste, os antigos comandados do general Mascarenhas de Moraes, e hoje sob o comando do antigo S-3 tenente-coronel Humberto de Alencar Castelo Branco, assumiram os postos civis mais importantes da Nação, bem como os comandos militares mais estratégicos.

Quando o primeiro escalão da FEB desembarcou na Itália, a população local e os comandantes aliados ficaram surpreendidos com o uniforme dos expedicionários brasileiros, bastante parecido com o fardamento da Wermacht alemã. E houve aqui no Brasil quem tivesse visto na coincidência o dedo bem treinado de elementos da quinta coluna com postos de mando na Ditadura. Hoje, no poder, novamente a FEB vez por outra faz lembrar o antigo exército germânico. Mas a semelhança agora não é mais de fardas. A semelhança agora, mais triste, é de mentalidade e de processos.

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Comentários

  1. Gostaria de imprimir a foto da Escola Superior de Guerra que aparece no texto acima para ilustrar um artigo em nossa Revista: Air & Space Power Journal em Português. Favor indicar quem possui os direitos autorais. Muito Obrigada

    Iris Moebius, Editora – ASPJ- Português.

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