O Dia D – Plano Bigot

A palavra, bigot, estava carimbada em letras maiúsculas no Plano Conjunto Inicial da operação Netuno de 12 de fevereiro de 1944, e desde então, até 6 de junho, esse carimbo esteve em todos os papéis de máximo segredo que passaram pela mão dos planejadores do Dia D. Caso qualquer um daqueles papéis ou mapas houvesse caído em mãos inimigas, a invasão não teria êxito ou teria sido arruinada.
Bigot era um nada mais que um código dentro de outro código, uma classificação de segurança além do “top secret”. Quando os planejadores adotaram Netuno como codinome dos planos navais da invasão, perceberam que maior proteção tinha de ser dada a todo documento em que houvesse a mínima alusão a data e ao local do Dia D. Escolheram para codinome a curiosa palavra bigot – que em inglês significa racista, intolerante. Aqueles que receberiam informações sobre o local e a data do Dia D passavam por uma verificação especial de antecedentes. Quando aprovados, eram chamados de bigoted.

Os mapas e documentos bigot foram criados em casulos isolados de sigilo. Um deles foi escondido na loja de departamentos Selfridges em Londres. Colaboradores bigot entravam e saíam da loja por uma porta dos fundos, muitos deles portando fragmentos de informação.

O projeto bigot era tão restrito que, quando o rei George visitou o navio do comando e perguntou o que existia do outro lado de um compartimento fechado por cortinas, educadamente não lhe permitiram ver, pois, como informou posteriormente um oficial de sentinela, “ninguém me avisou se ele era um bigot“.

O sistema, naturalmente, apresentou uma ou outra falha. Um erro sério ocorreu em maio, quando um General-de-divisão estadunidense contou a convidados num jantar em Londres que o Dia D aconteceria antes de 15 de junho. O general foi rebaixado e enviado de volta aos Estados Unidos, mesmo destino de um capitão da Marinha que cometera o mesmo deslize em outra festa.

Porém nada foi mais sigiloso – nem mais vital para a Operação Netuno – do que o entrelaçado de relatórios secretos dos Aliados que cartógrafos e artistas converteram nos mapas de várias cores e camadas da operação bigot. Neles foram ilustrados detalhes da “Muralha do Atlântico”, uma rede de defesas costeiras.
Para saber o que haveria contra os Aliados na Invasão, agentes secretos civis estadunidenses, britânicos e franceses se arriscaram – e alguns padeceram – para preencher os mapas bigot. Informações sobre o leito oceânico ondulado da Normandia vieram de mergulhadores que também conseguiram amostras da areia de praias guardadas por sentinelas alemãs. Anotações nos mapas bigot, como “vala antitanque ao redor de ponto de apoio” ou “ouriços a cada 9 ou 10 metros”, foram informações de patriotas franceses. Um pintor de paredes, contratado para reformar o quartel-general alemão em Caen, roubou uma planta das fortificações da Muralha do Atlântico. Radiotelegrafistas transmitiram informações em pacotes velozes para evitar as equipes de detecção alemãs.

Outras mensagens chegaram à Inglaterra por pombos-correios que a Royal Air Force enviara para os agentes da Resistência Francesa em gaiolas lançadas de pára-quedas na Normandia ocupada. Os alemães, estando a par destes espiões emplumados, utilizaram atiradores e falcões para pega-los, mas milhares de mensagens conseguiram atingir o destino.

Os mapas bigot se iniciaram com informações reunidas em velhos cartões-postais com paisagens da costa da Normandia e cartas geográficas da era napoleônica. Também foram utilizadas informações obtidas da Resistência Francesa. E então, em meados de maio de 1944, cartógrafos bigot solicitaram fotos aéreas da costa feitas em baixa altitude. Os pilotos treinados para voar a 3 mil metros, chamavam esses vôos rasantes sobre as ondas de “jogo de dados”, pois em seus aviões sem armas nem blindagem, era como se estivessem jogando com a morte.

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