Relato da Segunda Guerra – Ninho de Morteiro

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Coronel Sérgio Gomes Pereira

Meu Capitão Comandante de Companhia era uma figura, vamos dizer, inusitada. Chamava-se João Manoel de Faria Filho. De baixa estatura – Apelidamos ele de “Giovanni Piccolo” (Giovanni, o pequenino) . Porém era um homem de bravura pessoal a toda prova. Em várias ocasiões, quando a presença do Comandante de Companhia não era aguardada, ele aparecia.

O Subcomandante era o Primeiro-Tenente Nicolau José Seixas, já falecido. Em campanha, como é de regra, é o resposável pelo apoio logístico. Eu vou me permitir contar esse episodio, que é folclórico e absolutamente verdadeiro.
Relatórios de patrulha, inclusive de algumas feitas por mim, e por companheiros meus, não conseguiam informar a localização exata de determinadas posições de metralhadoras e morteiros. Numa dada ocasião, o Seixas disse: “Eu vou lá, levantar onde estão essas posições”, e repetiu num tom decidido: “Eu vou lá.”então, ele fez uma coisa contra as leis da guerra. Nós usávamos um uniforme completamente heterodoxo: parte seguia nosso regulamento; parte o estadunidense.

Debaixo do capacete usávamos um “gorrinho” de lã, para proteção contra o frio. Ele tirou o capacete, vestiu paletó civil, colocou um chapéu na cabeça, apanhou um peru vivo, isso mesmo, um peru vivo, e, sob a ave, uma metralhadora.

Transmudou-se num sfolatti, italiano desalojado pela guerra, que migrava de um lado para outro – uma espécie de refugiado. Nessas condições, atravessou a linha de frente e foi conversar com os alemães.
Acontece que o italiano dele era “macarrônico”, assim como o dos alemães, não dando a perceber que se tratava de um brasileiro. A verdade é que ele conseguiu descobrir o motivo dos erros de localizações das armas alemãs, que era o seguinte: havia aqueles cones de feno – chamados “medas” – preparados para a alimentação dos animais na época do inverno. Os alemães cortavam a vértice do cone, de maneira que ficava um abertura e, no interior, instalavam uma posição de morteiros. Atiravam e não se conseguia identificar as peças que realizavam o disparo.
Mais tarde, esse detalhe passou a nos chamar a atenção. Quem já viajou pela Europa, pode reparar que essas “medas”, hoje, são enroladas. Não precisa dizer que o Seixas teve que botar o “pé no mundo” e voltou para as nossas linhas, dando todas as informações. Recebeu, por essa ação, a silver star(estrela de prata), condecoração de guerra do Exército Americano.

Coronel Sérgio Gomes Pereira
Comandante do 2º Pelotão de Fuzileiros da 8º Companhia do III / 11º RI

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Comentários

  1. Bem aí está mais uma prova da bravura e ousadia dos Brasileiros que eu tenho certeza que foram os melhores soldados da segunda guerra mundial!

  2. eu tenho o maior orgulho de dizer que Nicolau José de Seixas era meu tio . Ele já faleceu em 1998, grande perda homen honrado. Ele está enterrado em Brasília no campo da esperança bravo homen cumpriu seu papel com a patria.
    Quem quiser saber mais sobre sua história. leia o livro “Memorias do Esquecimento”

  3. Atuo em jornal e o Edgar Seixas, ex-piloto da Varig (sobrinho do Ten. Cel. Nicolau Seixas) entregou-me uma pasta contendo diversas informações sobre os feitos de seu tio. Ainda não consegui publicar a matéria porque a cada momento recebo novas informações.
    Percebo tratar-se de um homem de alto espirito patriótico e libertador.

    1. Luis sendo sobre a Segunda Guerra mande alguma coisa para a gente postar aqui também.
      Meu e-mail ricardo@segundaguerra.netrlartes@gmail.com

  4. O Primeiro-Tenente Nicolau fez aquilo que achou ser seu dever: na dúvida, improvisou e adaptou. Cumpriu a missão, com os meios disponíveis, e acertou onde outros falharam.

  5. Ricardo, Luiz Carlos Martin e Claúdio José Seixas

    Vou escrever um livro sobre a Cia do veterano Nicolau José de Seixas: a Oitava do III Btalhão do Onze RI Gostaria de obter informações sobre a Oitava, inclusive adquirir o livro “Memórias do Esquecimento”, procurando no google só encontro um livro homônimo que trata das lamúrias de um terrorista dos anos 60/70.

  6. Ricardo, Luiz Carlos Martin e Claúdio José Seixas

    Faltou inserir o e-mail:

    durval.1990@gmail.com

  7. Sou sobrinha do Ten. Cel. Nicolau Seixas, e para mim é uma honra carregar essa medalha de prata que eu também acabei adquirindo: o sobrenome SEIXAS.
    Cada parte desta história me enche de emoção, pois a sua trajetória foi em prol de uma nação. Muito me envaideço por ser descendente de um homem preeminente. Tenho em minha veia um sangue de vencedor. Um orgulho que incendeia como fogo abrasador.

    DANIELA SEIXAS
    BRASÍLIA-DF
    danielaseixasrepresentacoes@hotmail.com
    UM GRANDE ABRAÇO!!!!

  8. Fico pensando! Com tantos heróis que foram à guerra, lutaram, morreram, ficaram mutilados, física e mentalmente, contra o totalitarismo alemão, mas também, o russo, de volta à pátria sem reconhecimento. E nós aqui sob o totalitarismo de pseudo esquerda, e nada fazemos! O que está acontecendo conosco? O que houve com nossos heróis, enquanto estamos inertes ao saque da nação, quando nossos guerreiros, a maioria homens simples, morreram, talvez sem sem nem saber o porquê, para defender a democracia?

  9. Sou neto do Giovanni Picolo. Gostei muito da história do meu avô

  10. Saudoso Coronel Sérgio Gomes Pereira, sou neto do Giovanni Picolo. Seria uma honra poder compartilhar mais histórias de meu avô. Grande abraço!

  11. Ilustre Coronel. Sou neto do Giovanni Picolo.
    Adorei ouvir a história dele que contou. Será uma enorme satisfação conhecer o Sr para escutar mais histórias dele. Grande abraço!

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