Relatos da Segunda Guerra – 15 de abril de 1945 – A batalha em que eu tombei

O dia 15 de abril amanheceu claro. A nossa progressão continuar. Arrancamo-nos de nossas trincheiras para novos assalto. Dois carros de combate nossos estavam danificados no pico de Monte Buffone, servindo de alvo para o inimigo que fixou sua objetiva neles. Nós saímos justamente por ali. Descambamos para o outro lado do monte e entramos numa pequena planície. Quando nos espraiamos no terreno plano os canhões martelaram em cima de nós. Bombas e mais bombas foram caindo e nós sem o mínimo abrigo recebemos o bombardeio de peito aberto. Corríamos para um lado, corríamos para outra e cada vez mais o bombardeio se intensificava. Não pude escapar, uma bomba caiu em minhas pernas, quebrando-as, uma totalmente e a outra com fraturas graves. Procurei as pernas e não encontrei.

Coloquei bem o capacete na cabeça e deitei de bruços, nada melhor podia fazer, ali a única proteção era a providência de Deus. Ato contínuo uma outra bomba caía em cima de um companheiro meu, um soldado do 1° pelotão. Olhei para ele; estava vermelho de sangue e apenas deu um gemido, virou para o lado e morreu.

Vi-me perdido porque eu me esvaía em sangue e os padileiros não podiam entrar no campo para nos recolher, debaixo de tão pesado bombardeio.

Pois mesmo assim os denodados homens do corpo de saúde entraram. Apanharam-me na padiola que foram jogando ora num lugar, ora noutro, corriam e voltavam e me pegavam de novo e foram me levando por lances, a trancos e barrancos, com grande risco de vida.

Tiraram-me da zona de bombardeio, amarraram-me um gar­rote em cada perna e voltaram para apanhar o morto e mais alguns feridos que iam tombando. O reduto principal já caíra em nossas mãos mas eles continuam resistindo obstinadamente. Sabiam que aquela Batalha era a luta decisiva de vitória ou de derrota. Na verdade o objetivo nosso era desorganizá-los de uma vez, capturá-los ou tocá-los de trote rumo à Alemanha, o que se deu. Mas eu saía da luta e saía apreensivo, deixando agora os meus companheiros lutar sozinhos. Quem iria agora comandá-los? O que encontrariam eles ainda pela frente? Fiquei meditando esse drama que podia ter sequência e trazer ainda muito desconforto para a nossa tropa. Mas eu tinha que me retirar.

Depois dos primeiros socorros fui levado par ao hospital de Pistóia onde eu devia ser operado imediatamente. Recomendei insistentemente aos médicos que esmerassem o quanto pudessem na operação para que a fizessem sem amputação a perna abaixo do joelho, mas não foi possível e quando voltei da anestesia minha perna estava cortada acima do joelho.

O impacto emocional foi terrível. Eu me despia da condição de um atleta esbelto e forte para ame situar à condição de um paraplégico. Todas as ilusões se desfizeram, toda minha fantasia estiolou… a minha vaidade de moço estava ferida e desfeita!

Fonte: O Expedicionário – Memórias da 2º Guerra Mundial – Joaquim Pinto Magalhães

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Comentários

  1. É o horror da guerra. E muitos ainda acham que os pracinhas foram para a Itália “passear”.

  2. GRANDES HEROIS!!!
    levam dentro de si o galhardao da vitoria para O mundo maior!
    nao importa que os homens desconhecam ou duvidem. DEUS OS CONHECE!!!!

  3. Ver esse site mostrando esses contos, ai é que tenho um orgulho de meu pais.
    Deviam ensinar isso nas escolas mostrar que não fomos meros participantes da segunda guerra

  4. Parabens a esses Herois que lá estiveram e Deus esteja com todos, Tenho orgulho de ser brasileiro e desses Homens.

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