Por Graco Magalhães Alves

Eu pensava, dentro da minha ignorância, saber tudo dos fatos heróicos e grandiosos da 2ª Guerra Mundial vividos em grande parte em Natal. O meu estimado amigo Coronel-Aviador Aparecido Camazano Alamino, um estudioso historiador da Aviação brasileira, me emprestou o livro “Galloping Ghosts in the Brazilian  Coast”, de autoria de Allan G. Carey. Confesso que, já tendo lido muito sobre o assunto, me surpreendi com o tamanho da Campanha.

Por isto este artigo.  Será para lembrar o poderio da Marinha Americana e da sua Força Aérea bem assim como do esforço da nossa jovem Força Aérea Brasileira (FAB), desprovida de material moderno, mas com pilotos dotados do sentimento de cumprimento do dever a toda prova.

Quando o Japão atacou Pearl Harbour em 7 de dezembro de 1941, os norte-americanos declararam guerra ao Japão e, consequentemente, à Alemanha e à Itália, obrigando-os à tomada de inúmeras providências para a segurança de seu território, bem como da América Central, Caribe e América do Sul. Os pontos mais vulneráveis, segundo os seus estrategistas, eram o Canal do Panamá e o saliente do Continente Sul Americano, coincidente com o Nordeste Brasileiro.

Nesse cenário, em 11 de dezembro de 1941, chegam à Rampa, em Natal – RN, uma Esquadrilha do VP-52, constituída com seis aparelhos PBY-5 Catalina (hidros), que vieram da Ala Aérea 3, cuja sede era no Panamá. Esses aviões foram apoiados pelos navios tênders USS Greene (AVD-13) e USS Thrush (AVP-3), começando as patrulhas no Atlântico Sul, desde Natal, inaugurando, assim, as operações em águas brasileiras.

O VP-52 permaneceu em Natal até 7 de abril de 1942, quando foi substituído pelo VP-83, subordinado à Ala Aérea 11 e dotado com 12 aviões PBY-5A (anfíbio), que ficou baseado em Parnamirim Field. Em Parnamirim, onde havia poucas instalações e as existentes eram muito modestas, que foram construídas pela Air France e pela Lati. A missão principal desses Esquadrões era a realização de ações de patrulhamento e antissubmarino.

A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DO NORDESTE BRASILEIRO E A CONSTRUÇÃO DE PISTAS

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O Nordeste brasileiro é o saliente do continente sul-americano mais próximo dos continentes africano e europeu, sendo de vital importância para o apoio às linhas marítimas e aéreas que ligam o nosso continente à Europa e à África.

Durante a 2ª Guerra Mundial, tal importância foi acentuada, tendo em vista que os aviões militares e comerciais utilizados à época não tinham autonomia para fazer uma travessia segura pelo hemisfério norte para os teatros de guerra no Sul da Europa. Nesse cenário, as bases aéreas construídas no Nordeste foram de suma importância para a travessia de aeronaves, assim como para o combate aos submarinos do Eixo que procuravam debilitar os corredores de suprimentos e de matéria-prima do Brasil para os Estados Unidos.

Com a finalidade de estabelecer uma rota aérea que passasse pelo Norte e Nordeste do Brasil e possibilitasse alcançar a África pela menor distância entre os dois continentes, os governos do Brasil e dos Estados Unidos firmaram um acordo para que tal corredor fosse efetivado.

Assim, em 25 de julho de 1941, pelo Decreto-lei nº 3.462 o Governo Brasileiro autoriza a empresa Panair do Brasil S. A. a construir, melhorar e aparelhar os aeroportos nas cidades de Amapá, Belém, São Luiz, Fortaleza, Natal, Recife, Maceió e Salvador, para permitir a sua utilização por aeronaves de grande porte mediante as seguintes condições:

Realizar, com o seu financiamento, benfeitorias nos aeroportos dos locais acima indicados, nos seguintes termos: Ampliação das pistas, além de mil metros e preparo do piso de modo a suportar o peso de grandes aeronaves, instalação de farol rotativo, luzes para assinalar os limites dos aeroportos, luzes de balizamento de pistas, luzes para assinalar os obstáculos nas aproximações dos aeroportos, holofotes para iluminar as pistas e usinas de emergência para energia elétrica;

Construir em Natal, além das benfeitorias do aeroporto de Parnamirim e anexo ao terminal marítimo, conhecido como Rampa, mais o seguinte: um pátio para estacionamento de hidroaviões, com vinte e quatro mil e quinhentos metros quadrados de piso, depósitos subterrâneos de combustível, bombas para reabastecimento rápido com as respectivas mangueiras e exaustores, bem como a rampa para encalhe de aeronaves;

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Parnamirim Field em construção em 1941. Hangar da Air France em 1º plano (Foto: Arquivos BANT)

Parnamirim Field em construção em 1941. Hangar da Air France em 1º plano (Foto: Arquivos BANT)

Assim, sob a responsabilidade e o encargo da Pan American Airways, de quem a Panair do Brasil era afiliada, foi criada a ADP (Airport Development Program) para a construção das pistas de pouso, instalações militares e de apoio em toda a faixa referida. Tal iniciativa foi de grande importância, tendo em vista que a infraestrutura existente nessa faixa não atendia a demanda e o movimento das grandes aeronaves militares ou comerciais.
O prazo para término de todas as obras foi estabelecido em dois anos, a contar da data do referido decreto-lei, sendo que, com incrível velocidade e competência, a ADP foi concluindo as pistas e as instalações em todas as capitais da faixa litorânea do Norte e Nordeste brasileiros, sendo que, em muitas localidades, bem antes dos prazos estabelecidos.
Com a entrada dos norte-americanos na guerra em dezembro de 1941, o cenário mudou e as obras, já iniciadas, foram de grande relevância para o esforço de guerra, com a utilização do novo corredor de suprimentos e de pessoal, que foi batizado de “Corredor da Vitória” e Natal, pela sua importância estratégica e privilegiado posicionamento geográfico de “O Trampolim da Vitória”.

Impressionante vista da Base Americana em Natal em 1944 (Foto: BANT)

Impressionante vista da Base Americana em Natal em 1944 (Foto: BANT)

Para coordenar e controlar todas as operações dos Esquadrões da U. S. Navy e outras aeronaves designadas para o serviço da 4ª Frota no litoral brasileiro foi criada a 16ª Ala Aérea, que foi ativada em 16 de fevereiro de 1943, sendo sediada, inicialmente, em Natal, onde foi efetivada em 13 de abril de 1943. Posteriormente, sua sede foi transferida para Recife, que era a sede da 4ª Frota da U. S. Navy. Tal Ala Aérea operou até 29 de junho de 1945, quando foi desativada.
Cabe ser destacado que na organização da Aviação Naval Americana na época, uma grande unidade era uma Fleet Air Wing.   Em tradução livre, Fleet é uma esquadra, composta de diversos vasos de guerra daí a Pacific Fleet, Mediterranean Fleet, North Atlantic Fleet entre outras. Uma Air Fleet poderia ter um número variável de Esquadrões e estes Esquadrões um número variável de aviões, conforme fosse o seu emprego. Para facilitar a compreensão em português, uma Air Wing foi traduzida por Ala Aérea. Na Campanha do Atlântico Sul a Marinha Americana usou duas Esquadras, a Fleet Air Wing 4 e Fleet Air Wing 16, sendo a abreviatura FAW seguida do número. A principal unidade naval americana da Campanha foi a Fleet Air Wing 16. Esta unidade, FAW 16, teve sob o seu comando os seguintes esquadrões durante a Guerra:
 

ESQUADRÕES DA U. S. NAVY QUE OPERARAM NO NORDESTE NA 2ª GUERRA MUNDIAL

A vinda das unidades aéreas norte-americanas para o Brasil foi de suma importância para que a soberania e a integridade de nosso país fossem mantidas e preservadas em um período tão crítico para a humanidade. Assim, será abordada a atuação dos Esquadrões da U. S. Navy que operaram em Natal e no Brasil durante a 2ª Guerra Mundial, sendo apresentados na ordem crescente do número do respectivo Esquadrão:
VP-52 – Natal – RN (Rampa) 11/12/1941 a 07/04/1942 – com PBY-5 Catalina (hidro).

Um PBY-5 do VP-52 é lavado na Rampa, em Natal, após regressar de missão em 1942 (Foto: U.S. Navy)

Um PBY-5 do VP-52 é lavado na Rampa, em Natal, após regressar de missão em 1942 (Foto: U.S. Navy)

VP-74 – Natal – RN (Rampa) 18/12/1942 a 28/04/1943 – com PBM-3C Mariner.
Manteve aeronaves destacadas em Salvador – BA (Aratu), Galeão (RJ) e Belém.
Afundou os submarinos alemães U-513 (19/7/1943) e U-161 (27/9/1943).
Localizou o submarino e iniciou o combate que resultou no afundamento do
U-199 pelo Catalina “2” da FAB em 31de julho de 1943 ao largo de Cabo Frio, RJ.

PBM-3C Mariner do VP-74 estacionado na Rampa, em Natal, em 1943 (Foto: U.S. Navy)

VP-83 – Natal – RN (Parnamirim Field) 7/4/1942 a 1°/5/1943 – com PBY-5A Catalina.
Afundou os submarinos alemães U-164 (6/01/1943) e U-507 (13/01/1943) e o
submarino italiano Archimede (15/4/1943).
VP-94 – Natal – RN (Parnamirim Field) 21/01/1943 a 18/7/1943 – com PBY-5A Catalina.
Manteve aeronaves destacadas no Rio de Janeiro (Santos-Dumont), Belém,
Fortaleza, Recife, Salvador, São Luis, Fernando de Noronha, Maceió, Caravelas (BA) e Santa Cruz.
Afundou os submarinos alemães U-590 (09/07/1943) e U-662 (21/7/1943).

PBY-5A Catalina do VP-94 operando em Fernando de Noronha em 1943 (Foto: U.S. Navy)

VB-107 – Natal – RN (Parnamirim Field) 15/6/1943 a 10/01/1945 – com PB4Y-1 Liberator.
Este Esquadrão é a transformação do VP-83, agora dotado com os PB4Y-1.
Afundou os seguintes submarinos alemães: U-598 (23/07/1943), U-848 (05/11/1943), U-849 (25/11/1943), U-177 (06/2/1944) e U-863 (29/9/1944).
Pelos excelentes serviços prestados na guerra, recebeu a Presidential Unit Citation.
VPB-125 – Natal – RN (Parnamirim Field) 18/3/1945 a 30/4/1945 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza e Fernando de Noronha.
VPB-126 – Natal – RN (Parnamirim Field) 18/01/1945 a 21/5/1945 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza.
VB-127 – Natal – RN (Parnamirim Field) 14/5/1943 a 02/9/1943 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Fortaleza.
Afundou o submarino alemão U-591 (31/7/1943).

Um PB4Y-1 do VB-107 realiza patrulhamento no Atlântico Sul em 1944 (Foto: U.S. Navy)

VB-129 – Natal – RN (Parnamirim Field) 30/5/1943 a 15/6/1943 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Recife e Salvador (Ipitanga)
Participou do afundamento do submarino alemão U-604 (30/7/1943).
VP-143 – Natal – RN (Parnamirim Field) 16/9/1943 a 28/01/1944 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Salvador (Ipitanga).
Foi substituído pelo 2º Grupo de Bombardeio Médio da FAB, que ficou baseado em Salvador, BA.
VB-145 – Natal – RN (Parnamirim Field) 16/9/1943 a 01/2/1945 – com PV-1 Ventura.
Manteve aeronaves destacadas em Fernando de Noronha, Ilha de Ascensão e Salvador (Ipitanga).
Ministrou o curso do USBATU para o pessoal da FAB em Natal.

A atuação dos PV-1 Venturas foi primordial para afugentar os submarinos do Eixo (Foto: U.S. Navy)

VP-203 – Salvador – BA (Aratu) 4/10/1943 a 23/01/1944 – com PBM-3S Mariner.
Manteve aeronaves destacadas em Natal – RN (Rampa), Florianópolis – SC, Galeão
(RJ) e Salvador (Aratu).
VP-211 – Salvador (Aratu) 16/10/1943 a 12/11/1943 – com PBM-3C Mariner.
Manteve aeronaves destacadas no Galeão (RJ) e Natal (Rampa).

Emblema do VP-211 – Salvador, 1943 (Arquivos Camazano)

Cabe aqui uma observação: quando o VP-83 chegou a Natal não havia ainda acomodações e todos os tripulantes tiveram que ficar em barracas.  Os primeiros oficiais aqui chegaram em aviões da Pan American, em Douglas DC-3 ou nos hidroaviões Sikorsky. Em 1943, todas as bases do litoral já tinham pistas asfaltadas com mais de mil metros, acomodações e todas as instalações para auxilio a navegação aérea. No livro “Galloping Ghosts in the Brazilian Coast” na pagina 16 pode-se ver uma foto, muito pouco nítida, de 30 barracas de lona, que eram utilizadas como alojamento temporário para os oficiais e os subalternos. Alguém nesta época escreveu uns versos humorísticos que registro abaixo:
 
                                   Natal is a land where we take our last stand
                                   The climate is simply just grand
                                   We live in a stable
                                   And fly when we are able
                                   To dig our planes out of the sand.

                               Versos humorísticos que ouso traduzir:

                                   Natal é a nossa última trincheira
                                   Onde o clima é sempre aprazível
                                   Vivemos numa cocheira
                                   Voamos quando é possível
                                   Cavar nossos aviões fora da areia
 
Por sua vez, a FAB com apenas dois anos de existência, inteiramente despreparada para uma guerra moderna, criou em 4 de fevereiro de 1942 em Fortaleza – CE um Agrupamento de Aviões de Adaptação, onde era realizada a adaptação dos pilotos da FAB em aparelhos modernos fornecidos pelos norte-americanos como os caças Curtiss P-36A e Curtiss P-40E e os bombardeiros North American B-25B Mitchell e Lockheed A-28A Hudson, gabaritando-os a operarem tais aeronaves nas bases brasileiras que estavam em construção no Nordeste.
As bases desse novo cenário estratégico estavam dotadas com os seguintes aviões obsoletos para a guerra que o Brasil estava enfrentando:

Base Aérea

Aeronave Operada

Belém – PA Consolidated Comodore
Vought Corsair V-65
North American NA-72
Waco CPF-5 e EGC-7
Natal – RN Curtiss P-36A e Curtiss P-40E
Waco CSO e CPF-5
North American AT-6B
Recife Vought Corsair V-65
North American NA-72
Curtiss P-36A
Vultee V-11 GB2 (desdobrados)

 

Unidades Aéreas sediadas na Base Aérea de Natal durante a Segunda Guerra Mundial:

BASE AÉREA DE NATAL: criada pelo Decreto nº 4.142, de 02 de março de 1942, iniciou as suas atividades oficialmente em 7 de agosto de 1942 e, durante a Segunda Guerra Mundial, sediou as seguintes unidades aéreas:

– Agrupamento de Aviões P-40: dotado com aparelhos de caça Curtiss da variante P-40E Warhawk. Operou de 1º de agosto de 1942 até 11 de novembro do mesmo ano.

Vista da BANT de 2007 (Foto: Coleção A. Camazano)

Vista da BANT de 2007 (Foto: Coleção A. Camazano)

– Grupo Monoposto-Monomotor: criado em 24 de dezembro de 1942, atuou até 17 de agosto de 1944, sendo dotado com caças Curtiss P-40E/K, além dos Curtiss P-36A, que atuaram até 10 de setembro de 1943.

Curtiss P-36A FAB 04 utilizado na BANT durante a Guerra (Camazano)

Curtiss P-36A FAB 04 utilizado na BANT durante a Guerra (Camazano)

– Grupo de Aviões Bimotores: ativado em 3 de março de 1943, atuou até 5 de outubro de 1944, empregando aparelhos Lockheed A-28A Hudson, Douglas B-18 Bolo e North American B-25B Mitchell.

– 2º Grupo de Caça: criado em 17 de agosto de 1944, permaneceu em Natal até 5 de outubro do mesmo ano, quando foi transferido para a Base Aérea de Santa Cruz – RJ. Operou com aeronaves Curtiss P-40E/M/N.

– 1º Grupo Misto de Aviação (1º GMA): ativado em 5 de outubro de 1944, atuando até 28 de agosto de 1945. Estava dotado com aviões de caça Curtiss P-40M e P-40N, além dos aparelhos de bombardeio médio North American B-25B/J Mitchell.

– 5º Grupo de Bombardeio Médio (5º GBM): criado em 28 de agosto de 1945, operou até 24 de março de 1947, empregando aviões North American B-25B/J Mitchell.

Cabe ser enaltecida a atuação de um aparelho honesto e robusto de nossa FAB, o North American AT-6B/C Texan, que foi destinado para a BANT como aeronave de adestramento e utilitária, porém as necessidades do momento exigiram que ele também fosse à guerra e participasse efetiva e eficientemente de missões de patrulhamento de nosso litoral, tornando-se a aeronave que mais fez essas missões em Natal.

O North American AT-6C FAB-83 atuou em Natal durante a Guerra (Camazano)

O North American AT-6C FAB-83 atuou em Natal durante a Guerra (Camazano)

Já em 15 de junho de 1943, apenas sete meses após a chegada do primeiro Esquadrão norte-americano ao Brasil, a FW-16 recebeu o Esquadrão VB-107, que ficou baseado em Natal com 15 aviões quadrimotores Liberator, que na Marinha era o PB4Y-1 e no Exército o B-24.

Após seis meses, a engenharia americana construiu instalações para o Comando, oficiais e especialistas da Marinha que foram muito bem alojados. Cabe aqui para refrescar a memória uma ligeira descrição do PB4Y-1:

PB4Y-1 LIBERATOR – O TERROR DOS SUBMARINOS NAZISTAS

Foto oficial do Liberator PB4Y-1 do VPB-107 em Natal (Foto: U.S. Navy)

Foto oficial do Liberator PB4Y-1 do VPB-107 em Natal (Foto: U.S. Navy)

Foi fabricado pela autora do seu projeto a Consolidated e pela Ford, que construiu a maioria de todos eles. Foi utilizado pela Aviação do Exército e da Marinha dos Estados Unidos, RAF, Royal Navy, Austrália e pela Nova Zelândia.
Era um avião de múltiplas funções, podendo atuar como bombardeiro, patrulha e transporte, reinando supremo no Pacifico devido ao seu longo alcance, não ultrapassado por nenhum outro avião.

PB4Y-1 Liberator do VP-107 de Natal com suas cores características (Camazano)

PB4Y-1 Liberator do VP-107 de Natal com suas cores características (Camazano)

Equipado com quatro motores Pratt & Whitney, de 1.200 HP cada um, sendo armado com 10 metralhadoras .50 posicionadas no nariz, cauda, torre dorsal, torre ventral e fuselagem, com 4.716 cartuchos. Peso vazio de 17.237 quilogramas e peso Máximo de decolagem de 36.741 quilogramas.
A sua velocidade econômica de cruzeiro era de 354 quilômetros com carga de 5.000 Kg de bombas e tinha alcance de 2.736 quilômetros. O Liberator foi o bombardeiro construído em maior numero, chegando a 18.214 unidades.
O Brigadeiro Nelson Freire Lavanère Wanderley não aborda este Esquadrão de PB4Y-1 Liberator em seu livro “A História da FAB”, mas o autor de “Galloping Ghost in the Brazilian Coast”, Alan C. Carey, descreve com detalhes a chegada de 12 desses aviões em Parnamirim em junho de 1943.
Espalhados pelos diferentes arquivos existem inúmeras fotos destes aviões em Natal, inclusive de uma homenagem prestada ao Esquadrão pela Senhora Roosevelt.

Interessante lembrar que nesta ocasião a senhora Roosevelt, em companhia do Brigadeiro Eduardo Gomes, visitou o Arcebispo de Natal, Dom Marcolino Dantas.
Este Esquadrão teve 15 aviões, hangar, alojamentos próprios, e até um cinema. Tais alojamentos foram muito usados por oficiais brasileiros após o recebimento da Base Americana em 1946 e era conhecido apenas por Navy.
Estes 15 aviões tinham 65 tripulantes. Mas convém lembrar que havia certo número de oficiais para cumprir uma escala e dar descanso aos demais tripulantes, além dos oficiais que exerciam funções administrativas e os especialistas em motores, instrumentos, armamento, rádio etc., que eram os responsáveis pela manutenção e pela disponibilidade dos aviões.
Paralelo a isto, os americanos criaram em Natal uma Naval Air Station (NAS) na margem direita do rio Potengi, onde está hoje o que chamamos simplesmente de Rampa.   A operação de hidroaviões é extremamente difícil.  Os de Patrulha só operam durante longas horas sobre o mar e exigem luta diária contra corrosão.
Esta NAS ocupou uma área enorme, basta ver que ela abrangia o que restou do que hoje chamamos Rampa, mais a área do atual Iate Clube e mais uma grande parte do atual Regimento de Artilharia. Os tripulantes dos Esquadrões sediados na Rampa tinham vida própria.

PBM-3 Mariner do VP-203 de Salvador, BA (Camazano)

PBM-3 Mariner do VP-203 de Salvador, BA (Camazano)

Por outro lado, os americanos aumentavam com rapidez o tamanho da Base de Parnamirim Field e em julho de 1943 já tinham prontas as pistas 12 e 16, centenas de prédios, que serviram de alojamento para os tripulantes de aviões que daqui seguiam para o norte da África. Eram centenas e centenas de aviões todos os dias, que aqui eram abastecidos, inspecionados e preparados para a longa travessia de cerca de 10 horas de voo em média.
Ainda para reforçar a guerra antissubmarino a Marinha americana mandou para o Atlântico Sul uma Força Tarefa sob o comando do Almirante Ingram, com o seu pavilhão no navio capitânia Memphis. Tal FT estava constituída por quatro cruzadores, um porta-aviões ligeiro de escolta e dois navios tender para hidroaviões.
Os dois navios tender ficaram baseados na Baia de Todos os Santos, pois na época o porto de Salvador não tinha atracadouro para hidroaviões. Era uma faina extremamente trabalhosa guinchar um PBM-3 Mariner para o Tender onde era reabastecido de combustível e munição além dos serviços de manutenção na célula, motores, rádio e armamento.
Quem já fez manutenção de aeronaves em água salgada sabe que a luta contra a corrosão é diária e penosa. Daí a solução é guinchar os hidroaviões para terra firme onde
receberão um tratamento severo com duchas de água doce, sendo um trabalho constante e penoso.
Após esta abordagem resumida da atuação americana na Campanha do Atlântico Sul, vejamos agora a atuação da FAB, sendo conveniente frisar que em 1943 nossa Força Aérea tinha apenas dois anos de existência e não tinha aviões para longos voos de patrulha nem tripulações treinadas.

Lockheed A-28A Hudson FAB 23 operado na BANT (Camazano)

Lockheed A-28A Hudson FAB 23 operado na BANT (Camazano)

 

Mas, com enorme esforço superou tudo. Os torpedeamentos de navios mercantes brasileiros na nossa costa, sem declaração de guerra, pegou todos de surpresa. De uma hora para outra os nossos navios mercantes, inteiramente desarmados, tiveram que se organizar em comboios e a nossa Marinha forneceu as primeiras escoltas.

Para enfrentar a situação alarmante, sem aviões adequados, a FAB posicionou sua força da seguinte forma e assim ainda estava em Julho de 1944:

 

Unidade

Base

Tipo de Aeronave

Missão

1º GpBP Santa Cruz – RJ Vultee A-31 Vengeance Bombardeio Picado
2º GpBP[1] Cumbica – SP Vultee A-35B Vengeance Bombardeio Picado
3º GpBP[2] Curitiba – PR Vultee A-31 Vengeance Bombardeio Picado
1º GpBL Canoas – RS Douglas A-20K Havoc Bombardeio Leve
2º GpBL Cumbica – SP Douglas A-20K Havoc Bombardeio Leve
2º GpCa Santa Cruz – RJ Curtiss P-40E/K/M/N Caça
3º GpCa Canoas – RS Curtiss P-40E/K/M/N Caça
1º GpPat Belém – PA PBY-5/5A Catalina Patrulha
2º GpPat Galeão – RJ PBY-5A Catalina Patrulha
1º GpBM Recife – PE Lockheed PV-1 Ventura Patrulha
2º GpBM Salvador – BA Lockheed PV-1 Harpoon Patrulha
3º GpBM Galeão – RJ Lockheed A-28A Hudson
North American B-25J
Bombardeio
4º GpBM Fortaleza – CE Lockheed A-28A Hudson Bombardeio
1º GMA Natal – RN Curtiss P-40M/N
North American B-25B/J
Caça e Bombardeio

Fonte: Decreto-Lei nº 6.796, de 17/8/1944 – Cria Unidades Aéreas


[1] Não foi ativado por falta de aeronaves Vultee A-31 e A-35B Vengeance.
[2] Não foi ativado por falta de aeronaves Vultee A-31 e A-35B Vengeance.
 
Além destes aparelhos, também foram usados os aviões Vultee V11 GB-2, adquiridos pelo Exército em 1938, sendo que 24 passaram para a FAB quando da criação do Ministério da Aeronáutica em 20 de janeiro de 1941.
 

VULTEE V11 GB-2 – BOMBARDEIRO E ATAQUE

Era um grande monomotor de ataque e bombardeio, mas não era avião de patrulha e, na falta de aviões melhores, teve que ser usado nesse tipo de tarefa. Foram retirados do serviço ativo em 1945. Podia levar 1.500 quilos de bombas.

Vultee V11 GB-2 “112” que operou em Natal e Recife em ação desdobrada (Camazano)

Vultee V11 GB-2 “112” que operou em Natal e Recife em ação desdobrada (Camazano)

Na história destes aviões dois fatos são marcantes: no primeiro vôo de instrução, com o aparelho matriculado “115”, houve um acidente em Vila Isabel (RJ), onde faleceram o capitão José Zippim Grinspunn – um dos mais voados pilotos da Aviação Militar – e o piloto de provas da fabrica Vultee, Clell Powell no dia 30 de janeiro de 1939.
O segundo foi o vôo realizado no aparelho matriculado “119” pelo Major-Aviador Clovis Monteiro Travassos, que decolou no dia 9 de julho de 1939 de Fortaleza – CE para um vôo direto pelo interior do pais – na época inteiramente desprovido de auxílios para navegação aérea – com destino a Porto Alegre – RS, cobrindo a distância de 3.240 quilômetros em 11 horas e 45 minutos de voo, sendo navegador o Tenente Osvaldo Carneiro Lima e do Sargento Alfredo Amaral Barcellos, telegrafista do voo.

Já o Vultee A-31 Vengeance foi recebido no inicio da guerra e foi usado de 1943 a 1946, foram recebidos 28 aparelhos. Era um bombardeiro de mergulho, não de patrulha, mas foi muito usado e com certas adaptações levava 900 quilos de bombas de profundidade. Também foram recebidos 5 aviões Vultee A-35B Vengeance em 1944.
Também o caça Curtiss P-40, muito conhecido em Natal, não era avião de patrulha, mas na falta de avião especializado foi muito usado. Cabe o registro de que foi o avião operado pelos Tigres Voadores do General Chenault na China, obtendo grandes vitórias sobre os aviões japoneses e David Tex Hill abateu 16 aviões.

Curtiss P-40K FAB 30 que fazia a defesa aérea em Natal durante a guerra (Camazano)

Curtiss P-40K FAB 30 que fazia a defesa aérea em Natal durante a guerra (Camazano)

No norte da África o P-40 foi muito usado pela RAF e o Wing Commander Clive “Killer” Caldwell abateu 20 aviões inimigos.  Forte, bem construído, foi empregado com enorme sucesso pela Força Aérea do Exército Americano e pela RAF. Foram construídas mais de 14.000 unidades. A FAB teve 85 aviões do tipo.
Faço um pequeno resumo descrevendo estes aviões, para se ter uma idéia de como a nossa jovem Força Aérea entrou na guerra desprovida de material adequado, mas, com pessoal decidido ao combate.  Em setembro de 1943, tendo a Força Aérea Brasileira recebido aviões modernos a Marinha Americana, em conjunto com a FAB, organizou um curso para formar nossos pilotos para atuarem em missões de Patrulha.
Esta unidade que foi denominada USBATU – United States Brazilian Air Training Unity prestou consideráveis benefícios à FAB. Com isto nossa Força Aérea, agora com equipamento adequado, entrou de rijo na Batalha do Atlântico Sul.
A primeira turma do USBATU terminou sua instrução em 26 de novembro de 1943 e entre os oficiais diplomados estavam os tenentes Ivo Gastaldoni e Roberto Hippólyto da Costa; o primeiro foi muito ligado por laços de amizade á família Lamartine e o segundo é irmão do coronel-Aviador Reformado Fernando Hippólyto da Costa, residente em Natal, onde constituiu família.

O USBATU foi ministrado nos aviões Venturas do VB-145 da U.S. Navy (Camazano)

O USBATU foi ministrado nos aviões Venturas do VB-145 da U.S. Navy (Camazano)

Tenho muito orgulho de lembrar esta passagem histórica da nossa jovem Força Aérea e destacar que Tenentes-Coronéis fizeram muitos vôos de patrulha e quero citar aqui José Kahl Filho, com 57 missões, Hernani Pedrosa Hardman com 87, ambos vindo da Marinha, Victor da Gama Barcelos com 107 missões e Rube Canabarro Lucas com 69 missões, estes dois vindos do Exército.
Portanto, num esforço de guerra quatro Tenentes-Coronéis fizeram 444 missões. No principio foram usados aviões obsoletos e já ultrapassados, mas com o recebimento de equipamento novo, foi quando os submarinos alemães sentiram o peso das bombas da FAB.
Do seu lado, nossa Marinha de Guerra empregou todos os seus recursos, com o ímpeto de quem foi a segunda maior Marinha do mundo em 1910, estava em 1940 pobre de recursos, mas com esforço sobre-humano cumpriu o seu dever e se cobriu de glorias.
O estudioso sobre o tema poderá ver mais detalhes no livro do Almirante Saldanha da Gama, mas destaco aqui que nossa Marinha perdeu no Atlântico durante a guerra 492 preciosas vidas. Não podemos nos esquecer disto.
Em contrapartida, a Marinha Alemã, tão agressiva de 1939 a 1940, passou a sentir a reação. A sua força submarina teve 40.000 homens no total. Destes, 30.000 perderam a vida. Só regressaram 10.000… Em dados resumidos, os submarinos alemães afundaram durante a guerra nos Atlânticos Norte e Sul um total de 2.640 navios e perderam 746 submarinos.
No livro “Defeat at Sea”, de autoria de B. C. Decker, na página 178, ele conta a conversa de dois oficiais da Marinha Alemã, ambos oficiais superiores da Força de Submarinos que confessam tudo perdido: “… em 1943 perdemos 231 submarinos e em 1944 outros 204”.
“Com os bombardeios diários dos aliados nos nossos estaleiros a produção de submarinos parou…”  “Nada recebemos para produzir novos submarinos, o sistema ferroviário não existe mais…” Não há dados oficiais e confiáveis sobre o número de submarinos alemães, mas estima-se um grande total de 750 a 800…  No Atlântico Sul, os alemães perderam 15 submarinos com 701 mortos. A FW-16 perdeu 48 vidas em seis aviões abatidos, sendo três Liberators.
A FAB não teve perda de vidas, mas dois aviões receberam fogo antiaéreo inimigo. Passados todos estes anos vêem a importância vital de Natal na Campanha do Atlântico Sul, a atuação de uma Força Aérea nova de dois anos desprovida de meios modernos para enfrentar uma guerra, mas que soube se equipar e treinar seus pilotos que atualmente na sua maioria já são falecidos.
Todos honraram a Pátria.   Todos merecem nossa Gratidão.
Dedico este modesto artigo aos membros fundadores e mantenedores da Fundação Rampa, que lutam incessantemente para resguardar e preservar a História da nossa Aviação em Natal e aos meus queridos amigos Coronel-Aviador Fernando Hippólytto da Costa e ao Coronel-Aviador Aparecido Camazano Alamino nossos historiadores mor.
 
BIBLIOGRAFIA E FONTES DE REFERÊNCIA:
Alamino, Aparecido Camazano. Arquivos históricos. Natal, RN, 2013.
Natal, Base Aérea de. Boletins e Livro Histórico. 1942 – 2013.
Carey, Alan C. Galloping Ghosts of The Brazilian Coasts.
Gama, Saldanha da. A Marinha Brasileira na Segunda Guerra Mundial.
Green, William. Famous Fighters of the II World War.
________________Famous Bombers of the II World War.
Lavanère Wanderley, Nelson Freire. História da Força Aérea Brasileira, 1ª. Edição

Agradecimento a Toninho Magalhães e a seu pai Graco (Veterano da FAB), cedido esse valioso artigo ao Ecos da Segunda Guerra!

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